Segunda-Feira, 07 de Agosto de 2017, 16h:50

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Cara-a-cara com a rua

Olhos que olham na profunda escuridão do outro lado buscando uma fagulha de luz e vida

Por: ARIADNE CAMARGO

 

Edson Rodrigues

Taynara_Pouso

 

A miséria e a dor são coisas muito difíceis de se olhar. Muitas vezes preferimos não ver, ou ficamos como meros expectadores de jornais que usam a dor humana para ganhar dinheiro, sem verdadeiramente nos envolvemos com o sofrimento do outro. Parece que a pobreza, a droga, a dor são de outro planeta ou de um país bem distante. Infelizmente, a realidade, quando nos dispomos a olhar pra ela, nos mostra que a miséria humana está bem perto, basta virar pro lado. 

 

O povo da rua, como são carinhosamente chamadas as pessoas em condição de rua por alguns de seus anjos da guarda, jogam na nossa cara que essa realidade fingida, com cara de rede social, não é para todos, na verdade, é privilégio de muito poucos.


Esses seres humanos que vivem na rua têm TODOS os seus direitos negados, não podem sequer ter a certeza de que comerão alguma coisa naquele dia, enquanto muitos de nós podem escolher o que comer. A maioria deles tem histórias muito mais trágicas e desafiantes do que as que conhecemos ou das que podemos fantasiar nos filmes de drama. A fome, a sede, o relento, a prostituição, as drogas são desafios diários que tiram, pouco a pouco, até atingirem estágios extremos, a condição humana dessas pessoas.


A TV nos mostra essa gente de forma fria e fragmentada. O episódio da ilha da Banana, aqui na nossa capital, é um exemplo do pedacinho que a gente vê de longe. Os moradores de rua que se abrigavam ali se repartiram, alguns foram abrigados em uma casa, o que causou desconforto e revolta nos moradores do bairro acolhedor, outros foram internados compulsoriamente e muitos atravessaram a rua e ficaram ao relento do Morro da Luz. A maioria da população vê apenas os fins a que a ação se destina. A violência, para aqueles que se reúnem na dor do Beco do Candeeiro, é algo corriqueiro, um enfrentamento inevitável. A prostituição e as drogas são formas de vida a que muitos se submetem por motivos diversos carregados de dor e angústia.


É claro, Graças a Deus, que não é só de maldade que essas pessoas vivem, apesar de nos tentarem convencer do contrário. Há muitos que enxergam neles uma chance de se humanizarem um pouco mais à medida em que ajudam a humanizar o outro. Nessa trilha de sofrimento, inúmeras pessoas deixam de lado os próprios conflitos porque reconhecem que os desafios daqueles considerados perdidos são muito maiores. É gente que dedica horas do dia para alimentar o povo da rua, mesmo que a fome e a sede não tenham fim. Gente que busca recursos para cobrir, vestir e calçar minimamente quem não tem nada.


Mais ainda: gente que dá o que quase ninguém consegue, ouvidos que escutam atentos a histórias de dor que os colocaram ali. Olhos que olham na profunda escuridão do outro lado buscando uma fagulha de luz e vida. Mãos que se sujeitam a tocar aqueles para os quais a maioria nem olha. Muito além, braços que se dispõem a abraçar sinceramente aqueles seres cobertos da sujeira do chão, da falta de banho e de água, adoentados pela condição em que vivem. Esses heróis da noite ficam quase nas sobras, apesar dos esforços, porque notícias de amor e solidariedade não dão ibope. A compaixão não rende cliques. Estamos acostumados a nos resumirmos a expectadores passivos e hipócritas da dor alheia, sem sequer procurarmos uma via para aumentar o fio de amor.

 

Felizmente, mesmo sem as luzes das câmeras, a ação desses seres de luz que adentram a noite para dar apoio e conforto para os desgraçados traz vida e a esperança de que o ser humano pode ser muito melhor do que é. São exemplos a serem seguidos, inspirações para nos ajudar a evoluir.


Estamos todos em estados evolutivos diferentes. Quem está na rua não é pior que o catedrático. A beleza é conseguir enxergar vida, dignidade, altruísmo e missão onde se encontram o miserável e a doutora.

ARIADNE CAMARGO é uma pessoa grata à amiga que emprestou os olhos noturnos para que ela pudesse ver o que ela não tinha coragem de olhar.

 

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