Quinta-Feira, 09 de Agosto de 2018, 10h:07

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Hoje não, pai

Por: MIRELLA CARVALHO

Mirella Carvalho

 

Um pai.

Pra ir nas festas da escola.

Pra me levar ao parque.

Pra chamar de meu.

É o que sempre quis, mas o meu nunca colaborou.

Ora alheio, ora muito ocupado.

Nunca preocupado com o que eu precisava.

Me esquecia na escola e no clube.

Esquecia do jantar no restaurante preferido da praia.

Mas um pai que humilha sua mãe não pode ser um bom pai.

Um pai que não é gentil com o garçom não pode ser um bom pai.

Um filho que não trata bem sua mãe não pode tratar bem suas próprias filhas.

Por isso, hoje, eu não quero mais um pai.

Talvez minha mãe o perdoe por cada vez que ele levantou a voz pra ela,

mas eu não o perdoo pela omissão em minha vida.

Se hoje meu pai não faz parte dela, foi ele quem quis assim.

Se a sociedade aponta o dedo pra mães que abortam,

por que não culpam os pais que se isentam da criação de seus filhos?

Meu pai me abortou em vida

E, sinceramente, eu não sei se quero relevar.

Perdoar uma vida de rejeição.

Absolver a agressão de quem tanto me amou.

Ontem ele podia. Hoje, não.

 

Mirella Carvalho é inclinada à dualidade: metade paulista, metade cuiabana; metade publicitária, metade administradora. É também sorridente por natureza, virginiana e colecionadora de todo quanto é tipo de coruja (exceto as de verdade).

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1 Comentários

Herondina Moreira Tavares Couto - 14/08/2018

Parabéns, gostei muito do seu texto por que, na maioria das vezes, as pessoas não têm clareza ou sufocam esse sentimento de desamor. Pai que trata a família com agressividade e espera que todos passem a mão na sua cabeça, merece receber em troca tudo o que plantou.

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