Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 17h:36

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Diretor da PCE revela ameaça e que lucro do Comando Vermelho chegava a R$ 1 milhão por mês

"A quantidade de drogas que entrava na unidade era absurda e o fluxo de dinheiro dentro da PCE era uma coisa inimaginável", disse ele.

Por: LUIS VINICIUS

Em entrevista exclusiva ao HNT/HiperNotícias, o diretor da Penitenciária Central do Estado (PCE), Agno Sérgio Ramos, afirmou que, antes da operação de limpeza e reforma do presídio, membros da facção criminosa Comando Vermelho (CV) lucravam até R$ 600 mil por mês com venda de drogas dentro da maior unidade penitenciária de Mato Grosso, localizada no bairro Pascoal Ramos, em Cuiabá.  

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 Diretor da Penitenciário Central do Estado (PCE), Agno Sérgio Ramos

Além disso, o agente penitenciário conversou com a reportagem sobre o enfraquecimento do poderio da organização criminosa após a ação, denominada "Elisson Douglas", que durou mais 30 dias na PCE, sobre a nova estrutura da unidade penitenciária e outros assuntos relativos a segurança pública.

Ele fala ainda sobre o atual momento no presídio e os planos para diminuir a superlotação na unidade penitenciária. A seguir você confere o bate-papo com o diretor:

HNT / HiperNotícias: Qual foi a maior dificuldade que o senhor encontrou na unidade quando assumiu há quatro meses?

Agno Ramos: “Quando nós assumimos a PCE, tínhamos uma unidade que estava dominada pela facção criminosa Comando Vermelho. Esse era o ponto mais alto das dificuldades que nós tínhamos e que teríamos de combater. Além disso, nós encontramos muitos problemas estruturais. A unidade estava com as celas bem deteriorada, do Raio 1 ao Raio 4 estava carente de reformas e tinha esgoto a céu aberto. A quantidade de drogas que entrava na unidade era absurda e o fluxo de dinheiro dentro da PCE era uma coisa inimaginável”.

HNT / HiperNotícias: Dentre todas as irregularidades, qual chamou mais a atenção do senhor?

Agno Ramos: “A comercialização de produtos não permitidos dentro da unidade. O preso não pode comercializar nada dentro da unidade, é proibido pela Lei de Execução Penal. Quando nós chegamos aqui, tudo estava sendo comercializado pelos detentos. Nós temos uma cantina aqui na unidade que é legalizada. Mas nos raios havia um mercado paralelo onde gerava muito dinheiro para os faccionados. Quem comprava na cantina era só os líderes do Comando Vermelho e os presos só podiam comprar produtos deles. Um exemplo: um detento que fazia parte da liderança comprava um pacote de bolacha e pagava R$ 1. Os detentos comercializavam por R$ 4. Ou seja, eles tinham um faturamento muito grande. Só de mercado paralelo dentro da unidade, eles tinham um faturamento de R$ 200 a 300 mil por mês. Em relação às vendas de entorpecentes, o lucro das lideranças era maior ainda, chegava a R$ 600 mil por mês. Todo o comércio na unidade era feito pelos líderes, ninguém poderia comercializar nada sem a permissão deles”.

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 Penienciária Central do Estado (PCE)

HNT / HiperNotícias: Esse lucro era dividido entre todos os membros da facção?

Agno Ramos: “O dinheiro que eles arrecadavam nas unidades ia para um determinado núcleo da facção. O lucro ia todo para uma determinada cúpula do Comando Vermelho. As outras pessoas que participam são 'escravas', são pessoas que trabalham para as lideranças. Além dos próprios faccionados, familiares também são escravizados. No entanto, o Governo do Estado, de forma assertiva, deflagrou a “Operação Elison Douglas” que conseguiu atingir a parte financeira da organização criminosa”.

HNT / HiperNotícias: Qual a sua avaliação sobre a operação?

Agno Ramos: “Foi excelente. Nós, em 30 dias, retiramos toda a eletricidade das celas de forma interna e colocamos de forma externa. Diante disso, os detentos não têm acesso à eletricidade. Antes da operação, as celas estavam todas deterioradas, elas eram todas interligadas por meio de buracos na parede. Diante disso, nós fizemos uma reforma e resolvemos todos esses problemas. O esgoto, que corria a céu aberto, nós também conseguimos sanar. Hoje na PCE temos um ambiente limpo, salubre, muito melhor do que estava antes. A ação foi muito positiva, pois se a gente pegar o índice de criminalidade enquanto ocorria a operação, é possível perceber um decréscimo muito grande”.

HNT / HiperNotícias: Teve algum aumento de vaga devido os trabalhos da operação?

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 Detentos na quadra da Penitenciária Central do Estado (PCE)

Agno Ramos: “Devido a ação, conseguimos aumentar mais 134 vagas nos raios 1 e 4. Então, devido a essa operação, é possível perceber uma melhoria no ambiente. Nós retiramos todos os excessos e foram abertos mais espaços.

HNT / HiperNotícias: Durante os trabalhos, familiares de detentos fizeram diversas denúncias de que eles estavam sendo agredidos e torturados na unidade. Qual a sua avaliação?

Agno Ramos: “Durante a operação, nós estávamos fazendo um trabalho para tirar o poder de uma facção muito grande. É óbvio que eles não aceitaram de forma tão tranquila, como já era de se imaginar. A ideia é que nós acabemos de vez com essa facção aqui em Mato Grosso. É óbvio que por conta disso, eles vão tentar nos desestruturar de alguma forma, tentando nos denunciar de várias situações. Mas, você pode perceber que essas pessoas, que participam dessas manifestações, são as pessoas ligadas diretamente a essa facção. A nossa operação foi limpa. Nós não demos nenhum disparo de arma de fogo. Isso acontece porque nós temos uma equipe eficiente, uma equipe treinada. Os confrontos que tiveram, nós conseguimos fazer o uso progressivo da força. Nós trabalhamos com a questão do contato zero, mas dentro de uma doutrina de trabalho. A nossa operação está sendo um exemplo para o país. Nós corrigimos muitas coisas que aconteciam aqui na unidade. Hoje, nós somos referência para outros estados”.

HNT / HiperNotícias: Em relação aos líderes da facção, tem sido feito um trabalho especial?

Agno Ramos: “Como eles perceberam que nós fizemos um trabalho limpo e sério, retiramos toda a força da facção e separamos a liderança negativa, esses líderes estão tendo uma vigilância muito mais aproximada agora. Não existe mais faturamento para eles. O lucro que eles tinham fora da unidade caiu drásticamente. Então, eles querem nos desestabilizar com essas denúncias. Todo mundo acompanhou o nosso trabalho, a Defensoria Pública, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e várias comissões. O nosso trabalho foi limpo, sério e transparente”.

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 Celas da PCE após a reforma

HNT / HiperNotícias: Quando se tem uma denúncia de agressão, como é feito o trâmite?

Agno Ramos: “Quando nós recebemos alguma denúncia de agressão contra preso, o que nós fazemos? Nós pedimos para tirar o preso e fazemos uma videoconferência com o juiz da Vara de Execuções, Geraldo Fidélis. Todas os procedimentos são tomados para não deixar margem para nada. Em relação a essas denúncias, nós estamos muito tranquilos, pois nós sabemos do comprometimento dos agentes. Nós tentamos fazer o melhor possível, dentro da lei. Nós não compactuamos com nada que seja ilegal, o nosso trabalho é todo pautado pela legalidade”.

HNT / HiperNotícias: Nós últimos dias, foi publicado na imprensa que o senhor havia sido ameaçado de morte. Isso é verdade?

Agno Ramos: “Essa questão de ameaça de morte, ninguém me ligou ameaçando, mas nós temos informações que eles teriam planos de me tirar da frente desse trabalho (operação) por conta desse prejuízo que eles tomaram. Eu recebo isso de forma natural, pois já estávamos preparados para isso. Nós sabíamos que eles não iriam aceitar e nos preparamos para isso.

HNT / HiperNotícias: Nos últimos dias, a Justiça ordenou que o valor arrecadado com o leilão da fazenda do ex-governador Silval Barbosa (sem partido) deve ser direcionado ao Fundo Penitenciário Estadual. Qual a sua opinião?

Agno Ramos: “Eu acho que é muito positivo. Nós temos um problema sério com superlotação de presídios e essa ajuda financeira nos ajudará a tentar sanar esse problema”.

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