Segunda-Feira, 17 de Junho de 2019, 08h:48

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Segredos da terra

Por: PAULO WAGNER*

Divulgação

PAULO WAGNER


Pedro acalentava o sonho de deixar o apartamento para morar em uma casa que tivesse, pelo menos, um pedacinho de quintal. Toda sua infância havia morado em uma casa de quintal amplo, onde podia correr e brincar com os irmãos e amigos. Mas sua transferência para a cidade grande e a necessidade de morar perto do trabalho o obrigaram a morar em apartamentos, que ele chamava de “apertamentos”.

Há anos morando em espaços verticais de habitação, ele sentia falta até das formigas atacando o vidro de açúcar e das baratas francesinhas que surgiam do nada nos armários e no guarda-roupa. Aquele ambiente asséptico e dedetizado do prédio onde morava tinha um cheiro antivida, um cheiro anti-humano que podia ser amenizado pela presença de pequenos e insignificantes seres. Insetos que fervilhavam na memória de sua infância embaixo de telhas, nas cascas das árvores, entre os livros empoeirados do porão.

E por mais que houvesse um desprezo higienista por essas criaturinhas, elas eram vivas lembranças que remetiam Pedro há um tempo feliz habitado por cigarras estridentes, trilhas de saúvas, aranhas, besouros, mariposas, centopeias, entre outros seres que surgiam espontaneamente em um canto aberto ou secreto de sua casa e quintal.  Ao voltar para casa dirigindo seu carro, em meio às luzes, sirenes e engarrafamentos, as memórias desse tempo de casa, terra e quintal traziam uma calma imediata, capaz de amenizar a pressão de mais um dia em sua rotina de trabalhador urbano.  

Um dia, ao visitar um amigo, em um bairro próximo ao centro, viu uma casa com placa de aluguel. O que mais lhe chamou a atenção no imóvel foi o quintal, onde notou a copa de árvores e um jardim meio abandonado na entrada. A casa pareceu-lhe um pouco antiga, mas aparentemente conservada. Alguma coisa o chamava para aquele local, um reencontro com alguma coisa perdida, talvez. Mas teria pela frente a difícil tarefa de convencer a mulher a deixar a segurança e a comodidade do apartamento onde moravam.

Tudo aconteceu de repente, o aluguel da casa era acessível, sua mulher exigiu apenas que colocasse câmeras e cerca elétrica para tornar o local mais seguro. Alguns reparos na calha e no encanamento e já estavam morando naquela casa aconchegante, que era um oásis de natureza  em plena cidade.

Nas horas de folga e nos finais de semana o que Pedro mais gostava de fazer era mexer com a terra, plantar, cuidar do pequeno pomar que tinha um pouco de tudo, goiaba, caju, manga, laranja e ata. A readubação do jardim com húmus, terra preta e esterco trouxe mais vida para o vergel, que não tardou em florescer e ganhar novas e exóticas plantas, espécies que se alastraram durante o período chuvoso, tornando o ambiente mais agradável e acolhedor.  

Ter novamente quintal e contato com a terra, com antigos cheiros, sabores e sensações acenderam no coração de Pedro uma alegria há muito esquecida; parecia ter reencontrado o elo perdido com um mundo que estava guardado dentro dele. Assim voltou a ouvir o canto dos pássaros e observar toda vida que buscava abrigo no verde e no chão do seu quintal. Assim redescobriu a beleza e a grandeza das coisas mais simples ao seu redor.

Naquele dia, ao tocar o canteiro da pequena horta que iniciara num canto ensolarado do quintal, Pedro percebeu que a terra era uma grande mãe a alimentar em seu seio todas as plantas, todas as flores, todas as árvores do planeta. Percebeu que a terra sustentava com sua generosidade as grandes araucárias, samaúmas e castanheiras que se elevam nas florestas. Sustentava os ramos rasteiros e avencas que recobrem o chão, as pradarias naturais que alimentam toda sorte de animais. Percebeu que a terra guardava e conduzia a água em suas entranhas e rios subterrâneos. Viu adormecido os animais que faziam do chão e das cavernas sua morada.

Pedro sentiu que a terra era viva e estava presente em seu sangue, em seus cabelos e ossos, em cada célula do seu corpo. Viu que a terra, apesar de grande e majestosa, precisa de cuidado, precisa que afastem dela o veneno da ganância. E assim, com mãos zelosas, continuou a plantar sua horta e sentir uma gratidão imensa por todos os frutos da terra que haviam lhe sustentado até aquele momento.

(*) PAULO WAGNER é Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos de Linguagem pela UFMT e escreve para HiperNotícias aos sábados. E-mail: pwoliveiral@yahoo.com.br 

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