O ano anterior ao pleito de 2026 inicia de maneira animadora para os que querem se ver livre da polarização entre Lula e Bolsonaro. O atual presidente amarga sua pior avaliação em 3 mandatos, em um ambiente em que suas promessas de campanha parecem não mais serem possíveis de se realizarem, com alto preço dos alimentos, combustíveis e o poder de compra da população diminuto. Do outro lado do polo, Bolsonaro além de inelegível pela justiça, agora é formalmente denunciado pela Procuradoria Geral da República e corre sérios riscos de um possível encarceramento. Neste contexto, pareceria óbvio existir algum movimento coordenado para fazer um nome capaz de vence-los, mas isso está bem longe da realidade.
O chamado centro político, aquele que estaria equidistante da esquerda lulista e da direita bolsonarista não tem líder e nem ensaio de que possa se organizar em torno de uma alternativa palpável para a disputa. Há um esfacelamento interno até mesmo das parcas tentativas que existiram com o objetivo de se dar uma robustez ao campo. Celebrada em 2022, a Federação entre PSDB e Cidadania, por exemplo, que serviu de base para a candidatura de Simone Tebet e que de certa feita tinha como horizonte a ampliação em busca de partidos do mesmo espectro, como o MDB, Podemos e até o PSD, acabou de maneira melancólica, com os dois partidos que a compunham bastante fragilizados.
Com essa vulnerabilidade de um caminho do meio e com a esquerda no poder, a direita sem Bolsonaro, inviabilizado pela justiça, é de maneira racional, a raia para quem quiser superar o dualismo presente nas últimas eleições brasileiras. Assim sendo, muitos nomes nesse campo tem surgido e tem sido testados nas pesquisas eleitorais que fazem um prognóstico da disputa. O desafio maior, no entanto, é conseguir incorporar elementos do discurso bolsonarista, de maneira a dialogar com o seu público, mesmo sem ter a sua benção definitiva de candidatura, para que não seja mais um figurante da polarização, assim como foram Dilma e Haddad em relação à figura paternal de Lula.
Na eleição paulistana de 2024, Pablo Marçal deu uma fórmula, que se não foi exitosa, no sentido de se chegar à vitória, pelo menos indicou que há um caminho para isso. O empresário goiano absorveu o antipetismo e o conservadorismo religioso-comportamental das falas bolsonaristas, mas enfrentou Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes, candidato oficial de ambos, de uma maneira inteligente, mirando os alvos mais fracos e preservando a liderança de Jair Bolsonaro. Muitos eleitores fieis do ex-presidente votaram em Pablo Marçal, que não conseguiu ir para o segundo turno, por menos de 1% dos votos. Dizem que a diferença entre a vacina e o veneno é a quantidade da dose e parece que foi nessa métrica que Marçal se perdeu ao apresentar um laudo falso contra o candidato da esquerda Guilherme Boulos, em que o acusava de ser adicto em cocaína.
A postura afirmativa, o discurso de prosperidade, a capacidade de romper o estigma de elite da direita brasileira e até mesmo, é bem verdade que de maneira muito caricata, mas com certo idealismo, as propostas futuristas, como o teleférico nas periferias, o edifício mais alto do mundo, a incorporação da educação esportiva nas escolas, foram muito importantes na construção desse personagem, que virou um fenômeno nacional, com cidades em todas as partes imitando o gesto de “Faz o M”, que viralizou com uma campanha extremamente bem articulada nos meios digitais. A capacidade de dizer o mesmo, mas ser diferente, foi um trunfo para essa candidatura que chacoalhou o cenário político nacional.
Um pouco arranhado com as más decisões tomadas na reta final de sua candidatura, Marçal se encolheu no debate político nacional e mesmo se colocando candidato, não tem sequer sido ventilado nas últimas sondagens coordenadas pela Quaest, divulgada pela Rede Globo, e pelo Paraná Pesquisas, que foi contratada pelo partido de Bolsonaro. Vale ressaltar que na pesquisa da mesma Quaest feita em outubro de 2024, logo após as eleições, Marçal aparecia em vantagem até mesmo contra Tarcísio de Freitas, tido como o natural sucessor de Bolsonaro, com 15% das intenções de voto e empatando tanto com o governador paulista, quanto com a ex primeira-dama Michele Bolsonaro, na preferencia do eleitor que se dizia bolsonarista.
O cantor sertanejo Gusttavo Lima é um outro nome que surge nessa raia e que pode dar muito trabalho no pleito. Empresário de sucesso, popular, com uma história de vida de superação e apoiador das ideias macro de Bolsonaro, o músico pode ser uma versão mais fresca do que foi Marçal, e uma união de ambos é algo que precisa de muito estudo e atenção, porque tem um potencial grande de encaixar no gosto do brasileiro. A desconfiança quanto a seu preparo para o cargo é o gargalo fundamental para superar, mas que pode ser facilmente conseguido, caso tenha a capacidade de se movimentar politicamente e atrair para seu lado os que querem essa ruptura com a polarização que não tem dado bons frutos ao Brasil nos últimos dez anos.
Entre os governadores que pleiteiam o cargo, Ratinho Junior chama a atenção por ser o nome da direita que melhor performa entre os mais pobres, muito provavelmente em função de seu pai, o comunicador Ratinho, apresentador do SBT. O líder do executivo paranaense mantém uma relação de proximidade ideológica com Bolsonaro, mas uma certa distancia política, tendo enfrentado o ex-presidente no segundo turno da capital Curitiba, quando seu candidato Eduardo Pimentel venceu Cristina Graeml, por uma ampla margem de 14%. Ronaldo Caiado, que não chega a ser uma novidade, já que foi candidato a presidente em 1989, tem na força da segurança pública tentado chamar a atenção do país. Romeu Zema enfrenta alta rejeição em Minas Gerais e tem tentado viralizar com vídeos na internet para tentar ganhar ares mais nacionais. Nesse sentido, o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga tem tido muito sucesso ao divulgar suas ações e tem ganho bons índices de popularidade, como indicou a pesquisa RealTime Big Data, contratada pela Rede Record, que o mostrou atingindo dois dígitos na disputa para o governo paulista. O fenômeno de Pete Buttigieg, nos Estados Unidos, que foi prefeito da cidade de South Bend e foi projetado para a corrida presidencial, pode servir de inspiração para Manga.
A rejeição a Ciro Gomes, que terminou o ultimo pleito, o quarto em que foi derrotado, com apenas 3%, o ocaso de Eduardo Leite, que até tentou se viabilizar na última eleição, mas que não conseguiu nem mesmo vencer as prévias de seu partido, além de ter que fazer um governo absolutamente atípico no Rio Grande do Sul, após a catástrofe climática, a cooptação de Simone Tebet para o governo lulista, do qual, hoje, é ministra e as múltiplas desistências do apresentador global Luciano Huck, que ensaiou à la Datena por diversas vezes candidatura e refutou na hora H, fizeram com que alternativas à polarização que dialoguem mais com a esquerda estejam praticamente solapadas. O governador paraense Helder Barbalho, com seu altíssimo nível de aprovação e com uma COP30 pelo caminho poderia representar esse campo, mas sua relação de proximidade e lealdade a Lula, tendo inclusive seu irmão como ministro das Cidades, faz dessa perspectiva muito pouco provável.
Como nos países parlamentaristas, as coalizões por vezes se dão para não permitir que o adversário principal tenha maioria e, muitas vezes, partidos de frentes opostas se unem com aquele que parece um menor risco. O centro, caso queira se livrar da polarização lulo-bolsonarista, nesse momento, precisa olhar para a direita. Na Alemanha, por exemplo, líderes da social-democracia, sabedores do mau resultado do atual governo por eles liderados tem até mesmo pregado voto útil no CDU, seu rival histórico para não permitir o avanço da AfD, ultra conservadora e nacionalista. A vitória na política, por vezes, se dá indiretamente. Uma nova ordem no Brasil passa pelo fim da polarização e para os defensores dessa causa é fundamental sair do dogma ideológico e jogar a política real.
(*) BRUNO SOLLER é Cientista Político - PUCSP, Especialista em pesquisas, estratégia eleitoral e advocacy, e diretor do Instituto de Pesquisas Quaest Big Data.
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