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Maria Barata Corrêa da Costa

Primeira Dentista formada de Cuiabá, Dra Maria Barata casou-se aos 24 anos com João Celestino Corrêa da Costa e acabou se tornando artista

Por: NEILA BARRETO*

Divulgação

Neila Maria de Souza

 

 

Nascida em Corumbá, a 02.07.1915, Mato Grosso uno, como ela  fez questão de afirmar enquanto viva, hoje, Mato Grosso do Sul. Filha de Silvestre Antunes Barata e Maria Mercedes Curvo Barata, graduou-se em 12 de dezembro de 1936 em Odontologia pela Universidade de São Paulo – USP, pela Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo, a Rua Três Rios, 363, no Bom Retiro, São Paulo, com apenas 21 anos de idade.

Maria lembrava com indignação, quando deixou Cuiabá para estudar em São Paulo. Contava que seus pais foram muito pressionados pelos amigos e parentes. Naquele tempo não era visto com bons olhos, uma moça que saia para estudar fora do estado, muito menos sozinha. No entanto, o que as pessoas não entendiam era que o meu pai só permitiu porque fui morar na casa dos meus tios Deolinda e Júlio Barata.

Silvestre Antunes Barata era comerciante do ramo de secos e molhados em Cuiabá e D. Maria lembra que era difícil naquela época uma família em Cuiabá que não comprasse em caderneta. Maria veio para Cuiabá com as irmãs Ana (corumbaense) e, aqui nasceram Guiomar, Olga, Angélica, Deolinda e, depois outra Olga. 

Depois de formada retornou a Cuiabá. Ela afirmava que foi a primeira dentista mulher de Cuiabá diplomada. Seu consultório ficava na Rua 13 de Junho, em Cuiabá e tinha o nome de Gabinete. Foi servidora da Saúde Pública do Estado de Mato Grosso e, lá atendia os presidiários que confeccionaram todos os móveis do seu consultório.

Ao que consta, Maria, depois de formada, trouxe para Cuiabá, também, os costumes das mulheres paulistas e as incorporou no seio cuiabano, novas ideias, mais participação, novas tendências 0tornando o caminho das mulheres cuiabanas menos árduo, ganhando visibilidade na sociedade cuiabana e uma maior participação na vida pública, pois:

Aprendeu a amar Cuiabá e dizia que antes todos eram quase irmãos. “Hoje, quando vou às compras, eu não reconheço quase ninguém. Os cuiabanos foram embora daqui é o que me parece”, dizia enquanto viva.

Tais observações feitas por Maria dizem respeito ao crescimento da cidade de Cuiabá a partir da década de 1940, no governo do interventor Júlio Muller. Foi durante este período que Cuiabá passou por uma evolução urbana significante, que mudou o aspecto da cidade, inclusive, com as obras oficiais.

Novos costumes e hábitos foram “importados”, como exemplo, uma nova bebida – a Coca–Cola trazida pela gigantesca operação econômica e cultural oriunda dos Estados Unidos. Outras foram as meias finas de nylon, aparelhos de depilar, perfumes. Essas novas tendências viriam sobremaneira afetar o modo e a vida de vestir, principalmente, das mulheres que deveriam seguir os padrões europeus. Soma-se a isso a criação da Revista Violeta.

Na década de 60, a cidade começa a crescer em direção sudeste, influenciada pelo asfaltamento da avenida Fernando Corrêa da Costa e pela implantação da Universidade Federal e, na década de 70 o marco oficial foi a criação do Centro Político Administrativo – CPA -, no governo José Fragelli. Nesse período, Cuiabá recebe um grande número de migrantes vindos tanto da zona rural quanto de outras cidades. Um novo ritmo é imposto. 

A capital mato-grossense foi atingida por todas as transformações que ocorriam no país. A renovação dos costumes pelas elites e pelos intelectuais foi assim observada por Benedito Pedro Dorilêo: (...) e as moças cuiabanas animavam-se em participar de esporte, ouvir boa música, promover saraus dançantes ou seções lítero-musicais ou teatrais. Os rapazes eram atraídos para as lindas cuiabanas, com os vestidos ornamentais colados ao corpo modelado pelo espartilho. Conquistaram românticos amores e consumaram muitos casamentos.

Maria Barata casou-se com João Celestino Corrêa da Costa em Cuiabá, em 28 de outubro de 1939, com 24 anos de idade, nos anos trinta. Neste momento viu-se entre a profissão de odontóloga pediatra e a vida de dona-de-casa. João Celestino não fez objeção a que ela prosseguisse na carreira de Odonto-pediatra. No entanto, como o casal preferiu morar na zona rural de Cuiabá, na chácara Bela Vista, no distrito de Sucuri, a Drª. Maria vendeu o seu gabinete dentário para o Dr. Pedro Paulo Corrêa da Costa e acabou retornando para um caminho que já conhecia, o comércio.

Na Bela Vista organizava as cadernetas dos fregueses e ao final de cada mês fazia também, a contabilidade. No Sucuri, vivemos uma vida de paz. Gente do interior é calma e o Joãozinho vendia tudo na caderneta. Do casamento nasceram os filhos Helyete, Filinto e Inês.

Na Chácara Bela Vista, no Sucuri Drª. Maria aprendeu a gostar da arte de fazer, da arte de cozinhar e iniciou a sua carreira de banqueteira. Lembra que a sua primeira encomenda de buffet foi feita pela senhora Maria Aparecida Pedrossian, e a sua última encomenda foi na cerimônia de 90 anos de sua mãe, no Rio de Janeiro, e o aniversário de 15 anos de sua neta, Adriana.

 

Convivendo com esse universo das festas Drª. Maria realizou diversos coquetéis em Cuiabá como o do antigo Banco Mercantil onde recebeu 300 convidados recepcionados com sanduíches de galinha, colorido, Puff de camarão, empadinhas, arliquenetes, rolinhos de geleias, bomba com creme, entre outros acompanhados de Martini seco, doce, drury`s, Coca-Cola, guaraná, água mineral e com serviços de dez garçons.

 

Para um coquetel na Residência do Governador em 24 de maio de 1969 preparou pastel folheado com recheio de presunto, canapé estrela, coxinha com creme, salgadinhos sultana e baianinha com camarão. 

 

A imprensa de Mato Grosso também foi cliente de D. Maria. Em suas memórias encontramos coquetéis servidos aos Diários Associados. Outro realizado em 13 de fevereiro de 1969 para a televisão Centro América.

 

Preocupava-se também com as louças que serviam os salgadinhos e, por isso aproveitou e, de cinco a sete de janeiro de 1970 realizou diversos cursos, como o da Escolinha da Walita em 21 de agosto de 1956 e de “plastificação” de louças com D. Nilda, vinda do Recife, especialmente para ministrar o curso na Rua da Constituição, nº. 31 – Sobrado, no Rio de Janeiro.

 

Preocupada em servir bem servir, D. Maria tinha o capricho de anotar para os seus auxiliares as regras de etiquetas para cada recepção: Com o chá se servem todas as classes de tortas, massas, bolos e sanduíches. Quando (...) é íntimo podem ser servidos torradas, brioches, doces, biscoitos e bolo inglês.

 

Com o passar o tempo e o crescimento dos filhos em idade escolar D. Maria e João Celestino venderam a Bela Vista e compraram um novo comércio na Praça da Mandioca, um armazém de secos e molhados onde também vendiam sorvetes e picolés feitos por D. Maria. Mais tarde trocou o armazém da Mandioca pelo Armazém Bandeirantes, na Rua Antônio João, nas proximidades da hoje Praça Ipiranga, adquirida do senhor Silvestre. Lá só vendiam secos e molhados, deixaram de lado os sorvetes e picolés. Faz questão de dizer que: Fui eu quem ensinou “Seu Fabico” – lá na Prainha a fazer salgados e as receitas de bolo de arroz e bolo de queijo. (...) eu ensinei ele e a esposa.

 

Ao longo dos tempos a cidade de Cuiabá, os espaços percorridos por D. Maria foram reutilizados para outras funções. Os armazéns pelos mercados e hipermercados. As pequenas lojas por Shopping Centers. As festas foram recolhidas para os interiores dos clubes e buffets. E da Cuiabá que tanto D. Maria tem saudades resta apenas uma “amostra” entre as ruas estreitas e fachadas coloniais no centro histórico da capital.

 

No governo de Júlio Muller, D. Maria e João Celestino se mudaram para o Rio de Janeiro. Ficou tomando conta do armazém bandeirante Manoel Oswaldo, conhecido como seu Vadinho.  No governo Pedro Pedrossian, quando retornaram do Rio de Janeiro, D. Maria assumiu a direção do comércio até quando foi vendido, na época em que inaugurou o primeiro mercado Morita, na década de 80 em Cuiabá que ficava na Avenida Prainha.

 

Passeando pela Cuiabá antiga, por meio de suas lembranças Dona Maria recorda as magníficas festas e bailes do Clube Esportivo Feminino. Para as festas e recepções recorria a estilista cuiabana Deolinda Barata, uma mulher cheia de atributos a qual confeccionava para ela boinas e luvas de tricô e crochê. As noites animadíssimas eram organizadas pela diretoria do clube, exclusivamente por mulheres: Zulmira Canavarros organiza a comissão de jovens e faz o convite à primeira diretoria. 

Junto ao Conselho Regional de Odontologia em Cuiabá verificou-se que não consta nos registros o nome da Drª. Maria Barata Corrêa da Costa, uma vez que os arquivos antigos se perderam quando da divisão do Estado de Mato Grosso em 1979. No entanto, o secretário do Conselho solicitou que a família envie ao órgão os documentos, a fim de que seja providenciado o registro histórico.

A opção de acompanhar o marido levou-a, consciente ou não, a transformar suas habilidades manuais desenvolvidas no exercício da profissão de odontologia. As mesmas mãos habilidosas e instrumentalizadas na Universidade de São Paulo que no ano de 1936, receberam um diploma, foram inteligentemente transformadas. Uma transformação que pode revelar num primeiro momento àqueles que observam a trajetória de Dona Maria Barata o impacto da perda da possibilidade de a mulher guiar-se sem os mandos do marido, do chefe de família.  Quantas e quantas Marias, ao longo dos tempos subjugaram-se aos mandos e vontades de seus maridos ou pais, um número infindo.

 

No entanto, Maria, ao fazer a referida opção, fez uma revolução, que poderíamos chamar de “revolução silenciosa”. Não deixou de atuar e participar nos espaços públicos, pois opinava, sugeria e destacava-se nas atividades urbanas, como a do pequeno comércio varejista juntamente com o marido.

Mas, e as MÃOS que clamavam? As mãos habilidosas, logo encontraram um lugar e acomodaram-se fazendo, produzindo, festas, cerimônias, propiciando, prazer, bem estar e porque não dizer, saúde às pessoas que a cercavam. Logo, foi sendo reconhecida pelos seus dotes culinários. Seus bolos brancos, como que tecidos em brancas rendas - (a cobertura da clara do ovo com açúcar), as bombas com cremes, somente faziam por despertar enormes desejos nos meninos e meninas, impacientes que eram na espera do momento de levarem-nas a boca.

Quanta guloseima, Dona Maria.  Como conseguiam suas firmes mãos fazer tão saborosos e lindos doces! E os pacus assados e recheados com arroz branco?   (...) quanta beleza você nos proporcionou.  De dentista virou Artista, essa Dona Maria!

Mulher, mulheres. A capacidade de transformar e amoldar o espaço onde vivem têm sido um de seus traços ou, uma de suas marcas ao longo da história. E Dona Maria, já sabia (e como sabia), que uma das características do gênero feminino seria essa, a de silenciosamente transformar o que lhe chega... inclusive, a vida humana em todas as suas dimensões e formas.

Maria Barata Corrêa da Costa faleceu em Cuiabá, em 28 de julho de 2016.

(*) NEILA BARRETO é jornalistaMestre em História. E-mail: neila.barreto@hotmail.com

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