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Artigos Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2025, 09:12 - A | A

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2025, 09h:12 - A | A

GONÇALO NETO

A filosofia da coxinha e o caráter humano

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO

Na simplicidade da vida cotidiana, encontram-se metáforas poderosas que refletem a complexidade da condição humana. Um exemplo curioso e, ao mesmo tempo, profundamente filosófico, está na seguinte observação de Euzebio Diniz, levada a efeito no grupo de watts administrado pelo jornalista Osmar de Carvalho: “você quer conhecer o caráter de uma pessoa, oferece uma coxinha para ela dar uma mordida. Se ela comer do lado do recheio, é mau-caráter”, pois descarta a massa e o equilíbrio do sabor.

À primeira vista, essa afirmação pode parecer banal ou humorística, mas esconde uma análise profunda sobre valores humanos, ética e moralidade, especialmente se o dono da coxinha não possuía mais dinheiro para comprar outra para seu “amigo”. A escolha de como se morde uma coxinha pode ser vista como uma representação metafórica de como as pessoas lidam com o mundo e com os outros. Antes do ato há confiança, solidariedade, generosidade e alteridade. Depois, se a escolha for pelo recheio imediato, surge o egoísmo, a vantagem e a priorização do benefício individual em detrimento do outro.

A escolha de onde morder a coxinha reflete a tendência de uma pessoa a pensar em si antes dos outros. Se o ato de compartilhar um alimento pressupõe uma certa equidade, o indivíduo que imediatamente busca a parte mais saborosa está se colocando acima da generosidade daquele que ofereceu. Esse pequeno gesto sugere uma inclinação ao egoísmo, à obtenção do melhor para si sem preocupação com o equilíbrio da experiência compartilhada.

Filosoficamente, esse comportamento remete a teorias do egoísmo moral, como as defendidas por Thomas Hobbes, que argumentava que os seres humanos são, por natureza, movidos pelo interesse próprio. O homem, segundo Hobbes, vive em um estado de natureza onde a busca pelo benefício pessoal prevalece sobre a consideração pelo outro. Nesse contexto, a mordida na parte mais saborosa da coxinha é uma manifestação simbólica desse princípio: a satisfação imediata e pessoal é mais relevante do que o equilíbrio e a reciprocidade.

Se, por um lado, o ato de pegar o melhor para si pode ser lido como um traço de mau-caráter, a alternativa – morder de forma equilibrada, respeitando a harmonia do alimento – demonstra um senso de consideração pelo outro. Isso se aproxima das ideias de Immanuel Kant, para quem a moralidade deve estar fundamentada no dever e no respeito ao próximo. O imperativo categórico kantiano ensina que se deve agir de forma que a conduta possa ser universalizada como um princípio moral. Ora, se todos pegassem a coxinha e mordessem diretamente o recheio, a partilha se tornaria injusta e insustentável.

A ética da generosidade se ancora também no pensamento de Emmanuel Levinas, que coloca o outro como centro da experiência moral. O verdadeiro caráter de uma pessoa é revelado na forma como ela trata o próximo, especialmente em situações que exigem renúncia ou consideração. Assim, aquele que morde a coxinha de forma consciente, equilibrada e respeitosa demonstra um olhar para além do próprio desejo imediato.

Na filosofia e na vida cotidiana, são os pequenos gestos que revelam o caráter verdadeiro. O modo como uma pessoa morde uma coxinha pode parecer trivial, mas simboliza um traço essencial: a relação entre ética e escolhas diárias. Em um mundo cada vez mais marcado pela busca por vantagens pessoais e pelo individualismo, refletir sobre gestos aparentemente banais se torna uma forma de enxergar padrões mais amplos de comportamento.

No fundo, a filosofia da coxinha ensina que a moralidade não está apenas nos grandes discursos ou nos dilemas existenciais complexos, mas nos hábitos cotidianos. Seja na mordida de um alimento compartilhado, seja nas relações interpessoais, escolher entre a generosidade e o egoísmo, entre a consideração e a vantagem, define não apenas uma refeição, mas a essência do caráter.
É por aí...

(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO tem formação em Filosofia, Sociologia e Direito.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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