Segunda-Feira, 07 de Maio de 2018, 08h:08

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Em Cuiabá, mulheres são mais agredidas em dias de futebol na TV aberta

Por: MAX AGUIAR

Aos domingos e quartas-feiras as mulheres de Cuiabá tendem a ser alvo de violência doméstica, conforme os dados 1º Anuário de Atendimento da Delegacia Especializada da Delegacia da Mulher de Cuiabá (DEDM). Foram 381 casos registrados no dia de domingo, ou seja em 15,2% das ocorrências e 378 às quartas-feiras (15,1%), coincidentemente, os dias que em passam futebol na rede de TV aberta. 

 

Marcos Lopes/HiperNotícias

violência doméstica/agressão/maria da penha

 

Cerca de 28% das agressões, ou 718 casos, ocorreram das 18h às 23h59, período de tempo em que há a maior possibilidade de encontrar os autores e vítimas compartilhando do mesmo ambiente doméstico. Outros 26% dos registros de violência, 645 ao todo, aconteceram de meio-dia até as 17h59. 

 

Cerca de 60% dos atendimentos foram ameaça e injúria – ofensa à honra e a dignidade da mulher – durante o ano de 2017. Os bairros Pedra 90, Dom Aquino, CPA 3, Tijucal e Centro Norte são os cincos que lideraram casos de registros de violência doméstica. 

 

O estudo coletou dados oferecidos pelo Boletim de Ocorrência, durante todos os dias da semana, no período de janeiro a dezembro de 2017. A Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá realizou 2.511 atendimentos, sendo computados neste estudo apenas os atendimentos à vítimas do sexo feminino, totalizando 2.718 ano passado.

 

HiperNoticias

delegada Jozirlethe Crivelatto

Delegada titular da Delegacia da Mulher, Jozirleth Magalhães

A titular da DEDM, Jozirlethe Magalhães Criveletto, explica que a análise não levou em conta a motivação, trabalho que deve ser realizado no anuário do ano de 2018. “Pode ser que tenha essa relação com a questão dos jogos de futebol, mas o que se destaca pelo horário também é de que vítima e agressor estão no mesmo ambiente, especialmente aos domingos. Na maioria das ocorrências o agressor fazia consumo de álcool ou sob efeito de entorpecentes. Aparentemente não tínhamos nada que relacionasse a maior incidência da violência doméstica a um evento, mas não descartamos não. No próximo anuário vamos aprofundar mais na motivação do crime”, explica a delegada. 

 

Doutor em Sociologia do Esporte, o professor Francisco Xavier Freire Rodrigues da Universidade Federal de Mato Grosso explica que a associação de futebol com a violência doméstica é um objeto de pesquisa interessante e vai incentivar os alunos dele a fazer pesquisa empírica sobre o tema. Apesar do cenário do anuário feito pela Delegacia da Mulher mostrar que os dias e os horários em que as mulheres são mais agredidas verbalmente, fisicamente e psicologicamente ser nos dias de jogos não há estudos ainda quem comprovem a associação. 

 

Futebol: baluarte do machismo

 

Contudo, a própria sociologia do esporte dá pistas sobre o comportamento masculino em relação ao futebol. Desde os tempos primórdios, os jogos olímpicos eram atividades de lazer e passatempo dos homens europeus. São manifestações da masculinidade, habilidade e força física até hoje associada apenas aos homens. Conforme o sociólogo alemão Norbert Elias, o esporte envolve combate, competição e violência consentida, regrada e aceita socialmente. 

 

“O futebol é um clube de bolinhas, um baluarte do machismo por envolver força, agressão habilidade e virilidade. O futebol é o esporte mais cultivado no país e o mais valorizado. No espaço do machismo poucos atletas se assumem homossexuais, pois ele coloca a carreira em jogo, está se condenando”.

 

A violência simbólica também é muito presente no futebol com os xingamentos e nesse espaço viril e cheio de testosterona as mulheres são agredidas com frequência. Recentemente uma jornalista da Rádio Gaúcha foi rebatida em um debate no programa para voltar para cozinha ao invés de debater futebol, árbitras e bandeirinhas são desrespeitadas, assim como as jornalistas que cobrem o assunto. Há apenas uma narradora no país. 

 

O doutor Francisco Xavier destaca ainda que a discriminação está em todos os segmentos do futebol, seja profissional ou de várzea. Em relação a violência envolvendo o futebol, ele cita o pai da sociologia Émile Durkheim, que dizia que eventos festivos são mais passíveis para se produzir crimes. Não é toa que nas festas de final de ano e no carnaval há mais riscos de violência e o porquê da Copa do Mundo adotar um esquema espartano de segurança.

 

“Os esportes coletivos que envolvem bolas são passíveis de situações de excitação, de descontrole emocional. No caso de Cuiabá, pelos horários que os dados levantados pela delegacia apontam que quarta à noite ou domingo à tarde são do futebol espetáculo, aquele para consumir no sofá ou assistir no estádio. Não sei se é coincidência a produção do futebol nesses dias e o domingo ser dia de lazer, envolver bebidas que facilita o afrouxamento das emoções. Um evento festivo que envolve a emoção do esporte e o consumo álcool pode desencadear a violência doméstica? Pode ser, mas não tenho dados para relação direta, pois é preciso pesquisa em campo para se comprovar, mas é um tema interessante e necessário para estudar”. 

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