Domingo, 16 de Julho de 2017, 08h:16

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Presas, mulheres são esquecidas pelos companheiros dentro do cárcere

Por: JESSICA BACHEGA

Abandono. Esse é o sentimento das 184 mulheres recolhidas no Presídio Feminino Ana Maria do Couto May, em Cuiabá. Na maioria das vezes elas foram usadas pelos parceiros para práticas de delitos, e acabaram presas. No cárcere, menos de 10% acabam recebendo visita de seus companheiros ou família. "Aqui ficamos abandonadas pelo mundo", relata uma detenta que está encarcerada há quase um ano por tentar entrar com drogas no Centro de Ressocialização de Cuiabá.

 

Alan Cosme/HiperNoticias

juiz geraldo fidelis

 Juiz Geraldo Fidélis

A distribuição das presas nas vagas disponíveis na unidade prisional é equilibrado. São 185 detentas abrigadas no local projetado para acolher 180 mulheres. Destas, três estão gestantes, 50 exercem trabalhos dentro da prisão. 18 trabalham nos serviços gerais em órgãos estaduais. Nove estão em prisão domiciliar e 87 estão sob monitoramento eletrônico. 

 

A presa mais antiga está na unidade desde 2013 de forma ininterrupta, acusada de tráfico de drogas. Outra é figura recorrente na prisão desde 2010. Sai e retorna com frequência ao local por crimes variados.

 

A falta de assistência dos companheiros e da família não são os único problemas encontrados no cárcere do Presídio Feminino. Lá, as mulheres também reclamam que são privadas de todo tipo de apoio, desde o carinho e contato humano até mesmo absorventes e papel higiênico, visto que os kits de higiene que o Estado oferece mensalmente, nem sempre são suficientes para atende-las até o próximo mês.

 

De acordo com o juiz Geraldo Fidélis, da Vara de Execuções Penais, há poucos estudos e pesquisas que expliquem o descaso dos homens e, até mesmo, filhos com as presas. No entanto, é constatado por meio do controle de visitação da prisão que apenas 40% das mulheres recebem visitas e esse número ainda é muito menor quando o assunto é visita constante. Dificilmente o encontro é com algum parente do sexo masculino. O cenário não é uma peculiaridade cuiabana. Ele é presente em todo o Brasil.

 

“É algo cultural. As mulheres não são respeitadas no Brasil. Seus companheiros as usam e jogam fora. São descartáveis”, ressalta o magistrado. Fidélis explica que em uma amostragem de 50 detentas, apenas quatro recebe a visita de seus companheiros. Situação bem diferente da prisão masculina, onde há filas de mulheres à espera para ver seus namorados, maridos e filhos. Além da presença e da atenção, elas levam comida, itens de higiene e demais itens “encomendadas” por aqueles que estão no cárcere.

 

Fidélis conta que a situação de mulheres na criminalidade tem piorado a cada ano. Em 2013 a maioria das detentas respondia por tráfico de drogas. Hoje elas praticam todo tipo de crimes e seu papel está casa vez mais forte em organizações criminosas.

 

“Muitas vezes os homens usam as companheiras para a prática de crimes. Para levar drogas e objetos para dentro das penitenciárias. Elas acabam presas na tentativa de entrar com os entorpecentes”, ressalta.

 

Divulgação

Cadeia

 

Relacionamentos homoafetivos

É da natureza humana a necessidade de afeto para seu bem estar. Nas mulheres, essa característica é acentuada e uma vez privada de contato humano com outros homens as mulheres acabam se relacionando com outras presas.

 

“Há essa mudança de comportamento. O único contato que as presas têm é com outras mulheres na mesma situação. Como os companheiros não vão à cadeia. Muitas mulheres acabam buscando esse afeto em relacionamentos com outras detentas”, conta o magistrado.

 

Esses relacionamentos, muitas vezes, perpetuam além muros. Pois grande parte das famílias não acolhem aquelas que deixam a prisão. De forma que elas constituem novas famílias em busca de reconstruir suas vidas e serem felizes.

 

“Se a situação é difícil para homens que deixam a cadeia, para as mulheres é ainda pior. Não há emprego e ninguém quer se relacionar com uma ex-detenta”, afirma o magistrado.

 

Falta de qualificação

O magistrado conta que por muitos anos as mulheres do Ana Maria do Couto mantinham uma espécie de cozinha industrial responsável pela alimentação de órgãos públicos e coquetéis para eventos governamentais. Porém o projeto foi extinto com o passar dos anos. Hoje a única atividade realizada no local são aulas de dança do ventre. 

 

“Ainda há muito o que se fazer para que esse quadro seja revertido. Mulheres presas são muito diferentes de homens detidos e o tratamento precisa ser diferenciado. É preciso oferecer oportunidades para que as detentas deixam a prisão com algum perspectiva”, afirma. 

 

 

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