Domingo, 10 de Setembro de 2017, 08h00
DEDICAÇÃO E SUPERAÇÃO
Primeira doutora em MT, professora conta como venceu preconceitos para estudar

JESSICA BACHEGA

É com orgulho e emoção que a engenheira Teresa Malheiro lembra sua trajetória de superação e vitória, desde a chegada ao Brasil até conquistar o diploma de doutora. Ela foi a primeira a ter o título em Mato Grosso, e também o de PHD. Ambos conquistados em universidades inglesas. Estudante dedicada, a portuguesa sempre esteve entre os melhores nos locais em que estudou e foi a primeira professora titular o curso de eletrotécnica  do Instituo Federal de Mato Grosso (IFMT). Além disso, ajudou a formar muitos profissionais de engenharia elétrica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

Alan Cosme/HiperNoticias

Professora Maria Teresa Malheiro

 Teresa Malheiro foi a primeira professora titular do IFMT

Nascida em Lisboa, Portugal, a engenheira veio com a família para o Brasil aos seis anos. O pai era militar e trabalhava em Angola, na África, quando iniciou a guerra após a independência angolana. Para fugir do conflito, a família veio para o Brasil. 

 

O pai, que era coronel, passou a trabalhar em uma fazenda em Tangará da Serra. A mãe, professora, se dedicava ao lar nessa época. Apesar do pouco recurso financeiro, Teresa e o irmão aprenderam desde cedo o valor do estudo e em uma época na qual as mulheres tinham poucas oportunidades e incentivos para estudar. A engenheira mudou-se para Cuiabá para terminar o ensino médio e iniciar a faculdade. O irmão também veio e ambos dividiam moradia com outras pessoas para poder economizar e se manterem na Capital.

 

A professora já falava inglês e francês quando chegou em terras tupiniquins. Para se manter em Cuiabá ela passou a dar aulas de idiomas, à noite, no Colégio São Gonçalo. Durante o dia, cursava engenharia elétrica na UFMT. 

 

Na década de 1970 as mulheres ainda eram criadas para casar e ter filhos, mas Teresa queria mais. Estudou com afinco e formou-se com louvor na graduação. Sua turma, com a qual mantém contato até hoje, era, majoritariamente, masculina: tinha apenas mais três mulheres.

 

“No meio acadêmico eu não percebia preconceito. A gente era muito amigo, ainda mais eu que não tinha família aqui. Mas a visão de quem estava de fora era bem diferente. Eles estranhavam uma mulher morando sozinha na Capital, ainda mais em um curso predominantemente de homens. As mulheres cursavam letras, assistência social, naquela época”, lembra a engenheira.  

 

Alegre e comunicativa, a portuguesa hoje ri ao contar dos momentos de dificuldade, quando não tinha dinheiro para o transporte e era preciso pedir carona na estrada para chegar à universidade. Na época, ela também fazia projetos para outros alunos, em troca de conseguir emprestadas as canetas especiais utilizadas no curso, uma vez que o material era caro e ela não podia comprar.

 

Alan Cosme/HiperNoticias

Professora Maria Teresa Malheiro

 A professora fala seis idiomas

Formada em meados da década de 1980, Teresa trabalhou na Centrais Elétricas Mato-Grossenses (Cemat). “Eles não gostavam muito de empregar mulher . Tinha trabalho de campo e outras atividades que achavam inadequadas. Mas eu fui”, conta.

 

Anos mais tarde, Teresa conseguiu uma bolsa para fazer o mestrado na Universidade de NewCastle, na Inglaterra, onde passou cinco anos e voltou ao Brasil com diplomas  de mestrado, doutorado e PHD. Todos com estudos na qualidade da energia elétrica.

 

“Lá fora duvidaram de mim e nem banheiro feminino tinha no laboratório”, lembra.

 

“Foi uma época de muita dedicação e renuncia também. Meus filhos ficavam na creche enquanto eu estudava e às vezes tinha celebrações na escola  e eu não podia ir ou chegava atrasada porque estava trabalhando. Apesar disso, sempre fui participativa e presente no desenvolvimento deles”, lembra emocionada a professora, que é mãe de um casal. A menina brasileira e o menino nascido na Holanda.

 

O diploma de doutorado da professora é de 1994, época em que o acesso às universidades era ainda mais restrito e não tinha incentivos como atualmente. “Fui a primeira pessoa a ter o titulo de doutor em Mato Grosso. Isso me deixa muito feliz. Todo o esforço valeu a pena e tenho muito orgulho disso. Assim com sei que meus filhos também têm muito orgulho, mesmo quando não pude dedicar a eles o tempo que queriam”,  lembra.

 

Dedicado X Inteligente

Teresa conta que o estudo é algo que deve ser levado com toda a seriedade, por toda a vida. Ressalta também que entre um aluno inteligente um dedicado, o dedicado tem mais chances de ter sucesso profissional. “Muitas vezes o inteligente  sai de curso em curso e não conclui nenhum. Já o dedicado precisa aproveitar a oportunidade e ele se esforça para fazer o melhor, sempre” relata.

 

O importante é não ficar parado

 

Alan Cosme/HiperNoticias

Professora Maria Teresa Malheiro

 Diploma de doutora foi consquistado em 1994

A professora hoje já não ministra mais aulas na UFMT, mas permanece como professora titular no IFMT. Mesmo com todos os títulos conquistados, inclusive em países como Israel, ela não parou por aí. Presenteada pelo filho, voltou aos bancos universitários para cursar Direito, em Cuiabá.

 

“Eu fiquei com tanto medo de não passar. Porque faz muito tempo que terminei o ensino médio. Mas fui aprovada e eliminei algumas matérias, me formei antes do prazo e tirei minha OAB”, documento que exibe com orgulho ao contar que, entre as tarefas no IFMT e as apresentações de trabalhos dentro e fora do país, ela também atua em causas judiciais de pessoas carentes, sem cobrar nada pelo serviço. “É minha maneira de ajudar as pessoas”, afirma.

 

Além de todas as atividade, Teresa ainda pinta telas que decoram as paredes de seu apartamento. “É meu hobby”. 

 

“A pessoa não pode parar nunca. Tem que cuidar do corpo, da alma e da mente para viver bem”. “Hoje as mulheres têm muito mais espaço e oportunidade que quando comecei a estudar. Mas é uma eterna luta de ter que comprovar sua competência mesmo com todo o estudo”, afirma.

 

Teresa lembra de um episódio embaraçoso pelo qual passou, mas que se desvencilhou com sabedoria. “Quando fui comprar esse apartamento o dono disse que não negociava com mulheres. Eu chamei meu irmão e meu filho, que nem moram aqui, para falar com ele. Conversando eu contei quem era meu pai, ele disse que conhecia e que não precisava mais falar com um homem, mas eu fiz questão”, ressalta. “Apesar de eu ter o dinheiro e o apartamento ser para mim, ele quis uma presença masculina par dar mais credibilidade ao negócio”, lembra do preconceito.

 

JLSiqueira/ALMT

teresa malheiro professora

 Homenagem da ALMT aos anos de dedicação na formação de profissionais

Sempre dedicada aos estudos, a professora não para de pesquisar e buscar novidades. Ela fala inglês, espanhol, francês, holandês e hebraico. Também já apresentou trabalhos de pesquisa na Romênia, Hong Kong, Austrália, Dubai, Israel, Siria, Inglaterra, Holanda, Espanha, Argentina, Portugal, Alemanha, Itália, Estados Unidos e ainda tem trabalho aprovado para ser apresentado na Eslovênia nos próximos meses. 

 

“Apesar das dificuldades que existem pelo caminho a gente não pode desistir. Não adianta ficar se queixando”, frisa.

 

No final do ano passado a professora recebeu o titulo de cidadã Mato-Grossense, na Assembleia Legislativa. O titulo é oferecido para pessoas que contribuíram para o desenvolvimento do Estado.

 

 


Fonte: HiperNotícias
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