Quinta-Feira, 10 de Agosto de 2017, 15h26
À força de um querer...
A personagem Bibi interpretada pela atriz Juliana Paes, tem borrado a fronteira ética do certo e errado

GABRIEL LEAL

 

 

Arquivo Pessoal

Gabriel Leal

 

Em 2009, uma equipe de pesquisadores do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), coordenada por Alberto Chong, divulgou um trabalho científico que apresentava a influência das telenovelas da Globo sobre a família brasileira. Mais exatamente, a pesquisa relacionava telenovelas da Globo às taxas de divórcio e fertilidade.

 

Acerca da fertilidade, os pesquisadores analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo em dois horários entre 1965 e 1999, mapeando que 72% das personagens femininas com idade até 50 anos não tinham filhos. Relacionando o sinal da TV Globo com os respectivos dados de fertilidade fornecidos pelo Censo, a saber, de 6,3 crianças nos anos 60 por mulher para 2,3 em 2000, os pesquisadores descobriram não apenas a proporção “sinal de TV versus declínio da fertilidade”, mas, considerando a faixa de horário, a audiência e o sinal, que as mulheres nessas áreas cobertas apresentaram taxa de fertilidade ainda menor que as demais. Interessante notar também que, segundo a pesquisa, as novelas mexicanas e importadas transmitidas por outros canais não causaram impacto na fertilidade.

 

No que tange ao divórcio, as taxas aumentaram de 3,3 em cada 100 casamentos em 1984 para 17,7 em 2002. Chong avalia que os valores morais reforçados pelas telenovelas certamente contribuíram para esse aumento nas últimas três décadas, e que, como a pesquisa apontou, a cada protagonista divorciada ou não casada, o percentual de divórcio aumentava aproximadamente 0,1% na região analisada. Ademais, esses percentuais tendiam a aumentar conforme a escolaridade e a condição socioeconômica. Há, ainda, a preponderância das personagens femininas das novelas quanto à influência dos nomes registrados, aumentando em quatro vezes a possibilidade de adesão nas regiões cobertas.

 

Os resultados alcançados, na perspectiva dos pesquisadores, foram positivos pois oportunizaram às mulheres, através das telenovelas, modelos para uma mudança de comportamento e atitudes frente ao tradicionalismo e à família burguesa. Ainda segundo os pesquisadores, a elevação das taxas de divórcio e a diminuição das taxas de fertilidade apontavam nessa direção mais “libertária”.

 

Portanto, longe de qualquer apelo “moralizante” ou de censura quanto ao conteúdo das tramas e seus efeitos, havia, no entanto, um aspecto emancipatório que se constatava e, dessa forma, poderia ser potencializado.

 

Nota-se pela pesquisa que as telenovelas da TV Globo, antes de tributos à arte, são aparelhos de engenharia social em massa. Desde os anos 60, uma revolução nos costumes tem implodido a família brasileira a partir dos valores consagrados nos enredos, e tabus, como a maternidade ou o casamento foram repensados em outra chave.

 

A que ou quem isso interessa?

 

Atualmente, a personagem Bibi interpretada pela atriz Juliana Paes, tem borrado a fronteira ética do certo e errado ao levar ao público às possíveis contradições sociais por trás dos atos daquele que é forçado a cometer crimes. Tem-se vendido que essa fronteira é menos nítida do que se parece, e o dever-ser ético relativiza-se sob o argumento do preconceito social, rotulação policial e hipocrisia vinda de uma sociedade de aparências.

 

Restam poucas dúvidas que esse comportamento no mínimo ambíguo da personagem, à beira da apologia ao crime, configura-se a longo prazo em um imenso desserviço social, a considerar sua influência fora das telas. Observando sobretudo a população carcerária predominantemente masculina, o cenário neste contexto é de mudança, dessa vez, penso, sem qualquer caráter “libertário” ou “emancipatório”.

 

*GABRIEL LEAL é Major da Polícia Militar de Mato Grosso. Doutor em educação pela PUC-SP. Autor de “Fundamentos das ciências policiais: da barbárie à segurança pública.”

 


Fonte: HiperNotícias
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