Domingo, 08 de Abril de 2018, 08h:00

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Linguajar: a marca registrada do povo cuiabano

Por: REDAÇÃO

Tradições, costumes, cultura rica e peculiar e particularidades distinguem toda a história do povo cuiabano que tem também, como marca registrada, o linguajar. Este é um diferencial. Os pau-rodados (nascidos em outros locais) conseguem identificar facilmente um cuiabano nato, nascido e criado na capital mato-grossense, que completará 299 anos neste domingo (8 de abril).

 

Ao longo dos anos, muitas famílias ainda preservam o sotaque cuiabano. É assim até hoje na família de seu Rômulo Bulhões, pai do servidor do Poder Judiciário Marcelo Benedito Bulhões. Aos 81 anos, o patriarca da família relembra com saudosismo a infância no bairro Goiabeiras, onde pegava água na bica, já que água encanada naquela época não existia. Ele residiu em outros endereços na Capital e cada local guarda uma história para contar.

 

De sotaque tipicamente cuiabano, é fácil notar que os traços do linguajar acompanham a família com o passar dos anos. Tanto pai como filho dizem ter orgulho desse modo de falar. “Sou mais cuiabano do que qualquer coisa. Vivi, fui criado e vou morrer aqui. Tenho orgulho de falar assim, tenho orgulho de ser fiel à minha família e de ser cuiabano”, diz seu Rômulo.

 

Ele lembra que quando pequeno seu pai ‘rasgava’ ainda mais o cuiabanês. “Papai dizia: xá tramela fala demáx (sua língua fala demais). ‘Quando morrer vai ser uma catchão para você e outro pra xá tramela’”. Sorrindo, ele relembra ainda outra frase de seu pai: “você fica assuntando (ouvindo) conversa de adulto”.

 

Mas infelizmente, com o passar dos anos, algumas pessoas vão deixando de lado esse sotaque, por convivência com outras pessoas que não falam da mesma forma, ou às vezes até por vergonha, conta seu Rômulo. “Minha irmã ficava tirando sarro de mim e me imitava dizendo ‘matchitche tchotchô (maxixe murchou). Mas eu nunca tive vergonha do meu sotaque de raiz, sou raiz de Mato Grosso”.

 

Patrimônio - A Portaria n° 17/2013, da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso, tombou o linguajar cuiabano reconhecendo-o como patrimônio imaterial do Estado e, com isso, o dialeto fica oficialmente protegido pelo poder público do risco de desaparecer. Segundo a portaria, “o linguajar cuiabano é parte constitutiva da cultura de Mato Grosso, instrumento de saber que serviu como base para a consolidação da cultura regional e instrumento principal de comunicação entre as pessoas”.

 

A doutora em educação e pesquisadora Cristina Campos escreveu o livro ‘O Falar Cuiabano’, que traz histórias de pessoas que moram em lugares da capital onde o linguajar cuiabano ainda está presente. A obra aborda a herança dos indígenas e europeus, e os hábitos de falar dos cuiabanos que, muitas vezes pelo diálogo, são facilmente ‘descobertos’ pelo sotaque.

 

Cristina diz que existem alguns traços na pessoa quando ela é cuiabana, como a mistura de gêneros no modo de falar. “Vou lá no mamãe. As pessoas cuiabanas mesmo não falam: 'eu vou lá na casa de mamãe', por exemplo”. De acordo com a pesquisadora, é bem comum essa mistura de feminino com masculino, misturando os gêneros que são as marcas do falar cuiabano.

 

“Outras características da nossa linguagem são a supressão de artigo: ‘papai foi lá’, ao invés de ‘o meu pai lá’. Outra característica são as consoantes fricativas, como th, dg. Ao invés de falar chuva, fala-se tchuva, o mesmo ocorre, por exemplo, com gente, quando fala-se: dgente. O rotacionismo, que é a troca de uma consoante pela outra, é muito forte entre os cuiabanos: é troca do r pelo l, como assembreia, crima, craro”, explica.

 

Segundo ela, foram duas as inspirações que a influenciaram a escrever o livro: o artista Liu Arruda e o poeta e escritor Silva Freire. “Quis valorizar o Liu Arruda porque ele foi uma pessoa que levou o dialeto cuiabano aos palcos e na época houve uma reação da cuiabania positiva e negativa ao mesmo tempo. Algumas pessoas se sentiram valorizadas e outras ofendidas porque achavam que ele estava debochando. E o Silva Freire, que é o maior poeta etnógrafo da cuiabania”.

 

Atualmente esse sotaque típico dos cuiabanos está ficando cada vez mais restrito às famílias mais antigas, tradicionais. A educadora acredita ser extremamente necessária a valorização das singularidades que estão sendo destruídas no planeta.

 

“O capitalismo hoje avança sobre os últimos espaços naturais, as últimas fronteiras e é de uma forma implacável. E a cultura cuiabana, o dialeto cuiabano na sua fragilidade, necessita ser preservado ou ser registrado porque somos uma cultura de tradição oral. Quando você destrói uma paisagem ou expulsa uma comunidade de um determinado lugar, isso é para sempre. Se não teve registro, isso simplesmente vai desaparecer na história. É muito importante que isso seja valorizado, preservado, porque é a nossa história, a nossa cultura”, finalizou.

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