Sexta-Feira, 19 de Maio de 2017, 18h:01

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Um amigo gay?

Por: TAYNARA POUSO

Edson Rodrigues

Taynara Pouso

 

Eu tenho um amigo gay, sabiam?

Melhor amigo. Desde a infância juntos.

Ele nunca brincou de boneca comigo.

Ele brincava de carrinho com os outros meninos e fazia trilha de bike.

Ele não precisou me contar que era gay. E nem eu que era hétero.

Quando cada um deu o primeiro beijo a gente ligou um para o outro só pra contar e ficamos felizes um pelo outro (mesmo que os beijos tenham sido estranhos e melequentos).

Quando ele contou para a mãe sobre sua sexualidade, me ligou chorando e como éramos quase vizinhos eu saí de casa correndo para vê-lo. Chegando lá eu dei de cara com a mãe dele no portão e já esperando ser mal recebida meu coração se encheu de nervoso, mas ela me olhou, me deu um abraço, e disse: "ta tudo bem". Eu entrei e só soube chorar junto dele.

Eu que nunca conseguia parar com um "namoradinho" e ele que sempre torcia para que alguém me amasse.

Eu vi meu amigo se apaixonar, ficar desesperado, e ser, sim, correspondido.

Ouvi planos, sonhos, vontades, desejos. Ri junto dele. E também sofri junto com as desilusões.

Às vezes eu dormia na casa dele pra ficar conversando até tarde, pra ver filme de terror (era o que a gente gostava), pra fazer pipoca.

Quando mudei de faculdade e de cidade, ele me disse: "vai, logo logo eu vou atrás de você". Ele ficou feliz quando eu conheci a galera nova do curso e a gente conversava o tempo todo pelo (antigo) msn.

Eu e ele falávamos sobre tudo e sabíamos tudo um do outro. E continuamos assim.

Hoje não mais fisicamente.

Meu melhor amigo, meu irmão, faleceu no dia 7 de outubro de 2012. E posso te contar? Foi um domingo de eleição e eu fui acordada com esta notícia. Foi a maior dor que eu já senti (em toda a minha vida). Nem conseguia respirar de tanto choro engasgado. Viajei pra Cáceres em desespero e no caminho um outro amigo me mandou uma mensagem de "estou aqui pra você". Um amigo que tinha acabado de perder a namorada e que estava passando por quase a mesma situação. Que mensagem! Me debulhei em lágrimas, sentada num ônibus frio, encostada na janela, indo me "despedir" da pessoa que mais esteve junto de mim nessa vida.

Meu amigo era gay, sofreu com a homofobia durante toda esta vida, e eu aprendi a ser agressiva para defender ele e a mim também (do bullying). Ele morreu sem ver seus direitos reconhecidos, sem poder ter paz pra namorar, pra andar de mão dada ou fazer gestos carinhosos em público, o tempo todo havia alguém pra apontar. Às vezes pessoas próximas a nós.

E por que? Porque ele era diferente?

Não. Ele não era. Ele era igual a mim ou a você. Ele também amava, sofria, ria, chorava, gargalhava, gostava de novelas ruins, odiava Harry Potter, ria da minha cara, debochava. Ele também tinha grandes sonhos e anseios. Também queria filhos e uma família grande. Também queria ser amado.

E ele foi. Intensamente. E ainda é.

Ele ainda é meu melhor amigo. A amizade mais bonita que eu já cultivei. A mais honesta, fiel e leal. Me cuidou e me protegeu de tudo e de todos, me desejou coisas boas, brigou comigo quando era necessário, e também foi meu colo pra chorar quando precisei.

Ele não era meu amigo gay. Não existe amigo gay. Existe amigo e isso ele nunca deixou de ser.

Minha metade.

Minha alma gêmea.

Meu amor.

E isso nunca vai mudar. Porque eu ainda tenho um amigo. Que continua anjo da guarda, só que agora abrilhantando esse céu. Que é pra onde eu olho quando a saudade aperta.

Dia 17 de maio foi o Dia Internacional contra a homofobia. Mas todos os dias eu me lembro dele e me lembro dessa luta, da nossa luta. Daqui, eu continuo, irmão, a nossa caminhada!

#homofobianãoéopinião #homofobiaécrime

 

Taynara Pouso de RG, publicitária de formação, cacerense de nascimento, cuiabana de coração. 26 anos, faz textão, é de movimento, é de ação.

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3 Comentários

Belquihor Carvalho - 27/05/2017

Perfeito. Sempre digo que devemos parar com esterióripos. Somos seres humanos e ponto final!

Haroldo - 23/05/2017

Pouso, as nossas opiniões nos define, mas também são elas que nos divide. O mundo impôs um padrão de "normalidade" a tudo e todos, padrão esse que deve ser seguido e nunca questionado. Ser diferente desse suposto "padrão" significou ser uma aberração aos olhos da sociedade. Temos que compreender e depreender que não se quer impor à sociedade que gostem dessa diferença, mas apenas e tão somente as respeite. O respeito às opiniões divergentes das nossas é tão sublime e cortês, que se trata de uma questão de EDUCAÇÃO. O dia que as pessoas começarem a respeitar as opiniões (políticas, orientações sexuais, religiosas, etc), umas das outras, acredito que o mundo será muito melhor. Ah!!! Com relação ao seu amigo (irmão), ele apenas fez uma viagem. Que como um barco, partiu deste porto rumo ao horizonte, vc observando ele se distanciar da costa até sumir completamente de sua vista, mas tenha a certeza que do outro lado existiu muitas pessoas alegres com a sua chegada. Belíssimo Texto, Pouso, assim como a sua subscritora.

Marcelo - 20/05/2017

Você também tem um coração generoso, um sorrisão, beleza radiante. Me apaixonei?? Sei não!!

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