Segunda-Feira, 17 de Julho de 2017, 10h:38

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Reencontro

Por: ARIADNE CAMARGO

Edson Rodrigues

Taynara_Pouso

 

Parece-me diferente o mundo agora. A transformação diante da vida como um todo é inevitável. O mundo parece de outra cor agora que você chegou mudando tudo ao seu redor. O brilho dos seus olhos vem das matas, o sangue que corre em suas veias e as águas que envolveram a sua chegada são doces. A ventania de dentro que se formou nas horas que antecederam à sua chegada vieram limpando toda a esfera do ambiente para que você ancorasse na calmaria.

A surpresa, os sons, o toque agudo do metal sagrado, o balanço circular de sua mãe, as mãos fortes de seu pai, tudo chamava você para o mundo daqui. Os corações aguardavam acelerados por você. Foram momentos indescritíveis e a luz que emanava ali não poderia nunca ser vista por olhos indiferentes.

Você, ainda no astral, escolheu quem estaria ao seu lado para sua chegada. Inspirou mamãe na escolha das fadas habilidosas que preparam tudo para garantir a sua segurança e a da sua rainha. Elas vieram cheias de carinho e prontas para ouvirem seu coraçãozinho pequeno de tempos em tempos.  Trouxeram tudo, lenços, panos, aparelhos, tábua rígida. O ninho no qual você iria mergulhar no seu primeiro contato com o mundo também vieram por elas, assim como a banqueta na qual sua mãe repousou para te trazer aqui. Os olhos atentos das fadas não piscaram sem que soubessem de cada movimento seu.

Você trouxe de longe as mãos feitas de pura energia de sua vovó. Ela veio e alimentou a mamãe, com comidinhas e amor, manteve a casa toda arrumadinha para você, lavou cada peça minúscula das suas roupas, passou, dobrou, guardou no cantinho que já é seu. Ela rezou, e rezou sério, se preocupou, ficou angustiada porque pensou que você estava demorando demais, ela não disse, mas pediu com muito vigor que o Pai Maior cuidasse de tudo. Foram momentos de concentração até de fato sua cabecinha cabeluda apontar.

Você também inspirou seu papai sobre quais olhos estariam autorizados a registrar tudo, com respeito e sensibilidade. Cada momento ficou guardado naquela maquininha estranha com um círculo de cristal no meio. Aquela que reproduz em imagens o que a memória pode perder com o tempo, chamam de fotografia. O rapazinho estava mesmo preparado para focar nas sutilezas, sabe? E ele também era feito de luz, claro, porque nenhuma mão ali estava por acaso, todas precisavam emanar energia para que você chegasse como queria.

A mana foi chamada de última hora, mas ela já estava nos seus planos, né? Ela parece feita de açúcar porque sai adoçando tudo com beijo, abraço, carinho... às vezes até enjoa, mas na maior parte do tempo é bom ter alguém com vontade de cuidar. Parecia que o amor que vinha dela para você era reflexo de um elo de muitas vidas. Açúcar, você sabe, derrete com água, então a mana derreteu em lágrimas esperando sua cabecinha miúda e seu corpinho escorregarem pela água até as mãos trêmulas dela. Foram tão profundas a gratidão e a emoção que nem dá pra alcançar num pedaço de papel. A boquinha cheia de líquidos esvaziou quando ela repousou deu peito nas mãos e suas bochechas repousaram entre os dedos. Foram segundos entre sua chegada nas mãos da mana e da vovó até o colo confortável de sua mamãe, mas pareceram uma eternidade inteira na vida contida naquele corpinho. Numa fração, a mamãe esqueceu toda a dor necessária ao parto natural porque o amor cresceu simplesmente.

Você também convidou uma cabocla enérgica porque era necessário despertar dentro e sentir a energia fora para querer sair. Ela veio com arco e flecha, amuleto e força. Deu repouso à mamãe para que ela conseguisse trazer você pra cá e convocou a energia das tribos e das matas para sustentar tudo o que viria depois. Você fez questão de outra vovozinha, bem pretinha e bem velhinha que confortou a mamãe e disse a ela o que fazer pra você chegar. Ela chegou cheia de doçura e sabedoria, colocou a mão na testa da mamãe, um rosário em suas mãos e a fez lembrar do que era preciso.

Uma rede de energia foi criada. Suas vovós espirituais oravam por você, emanavam vibrações positivas e tios e tias da casa do vovô Joaquim se uniram para pedir ao Papai do Céu forças para a mamãe e para você. Em meio a tantas vidas que o esperavam, seus olhos finalmente abriram, seu chorinho suave inundou o silêncio da tua espera. A lágrimas de alegria e emoção lavaram nossas almas e pudemos adormecer sentindo a sua respiração.

Gratidão, curumim Inã, por essa carinha de índio e esses olhinhos curiosos, gratidão mamãe Mi, pela sua coragem, determinação, força persistência e amor incondicional, gratidão papai, pela sua fé, paciência, companheirismo, dedicação. O toque dessas mãos enrugadas pelo líquido da vida nos transformou a todos para sempre.

 

Ariadne Camargo é uma mulher de fé e esperança renovadas pelo milagre da vida materializado no nascimento de uma criança cheia de luz.

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2 Comentários

Carla de Jorge - 22/07/2017

Que lindo!

Mirella - 18/07/2017

Que texto mais lindo, que palavras mais tocantes... Ah, Ariadne... Quem mais senão você para nos fazer mergulhar numa história e conseguir enxergar cada detalhe apenas com vocábulos? De fato, você é feita de açúcar e, assim como o doce, nos faz viciar!... =) Que bom tê-la por perto. Que sorte a minha! Que sorte a deste pequeno curumim tê-la como irmã e protetora...

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