Terça-Feira, 11 de Julho de 2017, 10h:05

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Propaganda Enganosa

Por: TAYNARA POUSO

Edson Rodrigues

Taynara Pouso

 

O ego que temos em excesso.

A criatividade que desaparece.

É, publicitários geralmente são conhecidos pela primeira frase. Retratados como "os cara" de pouca humildade, muita genialidade e excessos em qualquer coisa que viva ou fale.

Endeusados, muitas vezes, acreditamos nesse mito. Muitas vezes nos deixamos levar pelas poucas festinhas que nos são oferecidas e acreditamos que salvamos o mundo com nossa criatividade.

Acontece que, no mundo real, não somos deuses.

Triste constatar isso, não é? É, eu sei, amigos. Quando fiz o enem e escolhi Publicidade e Propaganda não foi pelo glamour da profissão. Na verdade, só me lembrei que gostava muito de propaganda na infância. Aos poucos, durante a faculdade, eu também (por um segundo) acreditei que estava salvando o mundo com a minha cabecinha, com a minha vontade de criar, de escrever, e achava o curso F-O-D-A. Me apaixonei.

Ainda bem, isso não me deixou ter pensamentos de desistência. Me fez seguir em frente. Mas a realidade esfrega várias verdades na nossa cara. Cheguei ao final do meu curso muito descontente com o que via, com as possibilidades se findando, e aquilo que era pra ser a melhor fase se tornou um pesadelo. Não mais estudante, desempregada, formei em 2015 e entrei no mercado de trabalho crua, sem entender quase nada (ainda não entendo). O destino me atirou numa vaga de redatora (enquanto escrevo o word me corrigi pra redator) mesmo eu achando que era incapaz, e, glória, deu certo. UFA!

Aos poucos fui percebendo que o mercado em Cuiabá (CAPITAL DE MT) era restrito, que existem profissionais DIGNOS de Cannes e que estão escondidos, não existe valorização e sempre existe "os conhecidos" que acham que um freela deve ser baratinho. Mas deixa eu contar para vocês que a maior parte de nós vive no limite do limite. Que nos sujeitamos a salários baixos, que entregamos nossas ideias em freelas (que deveriam ser esporádicos, mas são rotineiros) para além do barato. Que sentamos e estudamos 4 ou 5 anos da vida e não sabemos cobrar pelo nosso esforço. Que as nossas perspectivas são baixas neste mercado, que almejamos pouco porque não temos quase nada. Ninguém nos conta que peitar sair da cidade é difícil, é muito caro e a vida adulta quase não permiti. Ninguém nos conta que é um curso caro, com especializações caras, com salários poucos atrativos. Ninguém nos conta que em algum momento a gente vira máquina e vai fazendo tudo na pressão e no automático. Ninguém nos conta aquilo que é fora do roteiro charmoso das festas e premiações. Ninguém nos conta que são poucos o que conseguem uma vida financeira BOA e quando conseguem deixam de ter vida social.

Não pense em crise, trabalhe. Que frase infame, mas para nós profissionais da publicidade ela é dita todos os dias. Sofremos com ansiedade, estresse da vida corrida e ainda com a instabilidade do mercado. Há aqueles que usam o talento para ter o próprio negócio, há aqueles que escolhem o marketing e existem os que insistem em agência. Estes últimos sempre precisam escutar: "Ah, mas você tá louco de continuar em agência" ou "Abre seu próprio negócio, cara". Diante de tudo isso a criatividade se perde e viramos só uma ferramenta para solucionar problemas em 5 segundos.

E se é difícil para os homens, imagina para nós mulheres.

Somos minoria, ganhamos menos, trabalhamos muitas vezes mais para provar que somos capazes. Somos repreendidas se deixamos a casa de lado para cuidar do trabalho, mas somos cobradas para permanecer trabalhando.

Vejo mães publicitárias sendo massacradas porque chegaram mais tarde no trabalho por conta do filho, ao mesmo tempo vejo-as sendo massacradas também quando ficam até mais tarde no trabalho. O mesmo não acontece com os pais publicitários.

Vejo mulheres no mesmo cargo, exercendo a mesma função que homens e sendo menos reconhecidas, menos valorizadas.

É incrível. E não, isso não é uma tradução só do mercado cuiabano, isso é a realidade dos publicitários e publicitárias. Seja qual for a cidade.

Ah, mas toda a profissão tem seus prós e contras.

Sim, é verdade. Mas em nenhuma o profissional se vê tão sem saída e acuado. Acuado por muitas vezes não poder ter opinião, atrelado a um salário ruim, apegado a uma rotina estressante e desgastante.

Você pode achar que eu sou uma pessoa frustrada, mas posso dizer, com todo o coração, que não. Não, eu não tenho um emprego ruim. Eu escuto elogio dos meus superiores, assim como escuto críticas construtivas e maravilhosas. Sou a única mulher na criação da agência em que trabalho, e me orgulho de todos os dias mostrar para todos eles que eu também sou capaz. Sou capaz de melhorar, de aprender, de evoluir. E outras também são.

Eu agradeço pelo ambiente onde estou, ao mesmo tempo luto para que seja sempre mais. Para que sejamos mais.

Ser criativo não é ser clichê. É sair da zona de conforto. É entender que o mundo está em constante desenvolvimento. Que os contextos mudam, a realidade se transforma. É mudar os conceitos e acompanhar a modernidade. É desconstruir preconceitos, estereótipos. É quebrar paradigmas e entender que as pessoas são relativas. SOMOS DIVERSOS. Ser criativo é conseguir matar vários leões todos os dias e ainda sorrir. E ainda buscar tudo isso. Se não for para isso, então não vale a pena.

Nossa profissão só vai crescer quando, realmente, acompanhar a evolução.

Só seremos mais quando acreditarmos que podemos.

Eu posso. E você? Vamos?

 

Taynara Pouso no RG, publicitária na formação, cacerense de nascimento, cuiabana de coração. Escritora por paixão, gosta do textão, é de movimento, é de ação.

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1 Comentários

Benedito Addôr - 11/07/2017

O hipernoticias fez a matéria intitulada "Morador argumenta em vídeo que Ilha da Banana não atrapalha a rota do VLT". Trata-se a Propaganda Oficial do VLT, que percorreu o mundo inteiro, ficou nos telões da Secopa durante um ano, para divulgar a Copa e o VLT. Nela é demonstrado claramente que as casas da área frontal à Igreja do Rosário, não atrapalham a passagem do VLT coisa alguma. Mesmo assim, para justificar a desapropriação das mesmas foram dizer para o Meritíssimo Juiz: se as casas não forem retiradas, o VLT não passa. Propaganda Enganosa, Mentira, foram os ingredientes para desapropriar e demolir as casas. Fazem cinco anos que encontro pessoas na rua, e elas me cobram: sua casa está atrapalhando a passagem do VLT. Prevenido, ando com a foto da Propaganda na pasta, e assim que a mostro, a pessoa muda de ideia, e diz: pensava que sua casa atrapalhava a passagem do VLT, mas não atrapalha. Tenho perguntado para as autoridades: O que é Propaganda Enganosa de um Governo?

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