Terça-Feira, 18 de Julho de 2017, 09h:55

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Eu queria...

Por: MIRELLA CARVALHO

Mirella Carvalho

 

Eu queria ter sido um daqueles bebês Johnson,

que toda mãe se encanta ao ver a carinha angelical.

Do contrário, sujei a amiga da minha mãe (de número 2!) na primeira visita que tive.

É, desde os primeiros dias, eu já dava sinais da minha personalidade.

 

Eu queria ter sido comportada, usar rosa, meia-calça e vestido com babado.

Eu queria ter sido exemplo, ter sido a boneca, sem roxos pelas pernas.

Mas, nada disso... Logo na primeira vez que comi bolo de chocolate,

enfiei tudo na boca na ânsia de caber mais, de tão bom que estava.

 

Nas festas, eu era carregada pelos meninos.

Em vez de brincar de boneca, escorregava com a caixa dela no half pipe.

E, por sinal, ao sair para as festas, era sempre a última a ser trocada.

Poderia me sujar, me rasgar,...

 

Eu queria ter sido uma filha melhor,

aquela que conta tudo para a mãe.

Mas meu jeito de tentar resolver tudo sozinha nunca me permitiu.

Sempre achei que esse era o caminho certo.

 

Vejo, hoje, as meninas de ontem crescidas.

Há um padrão de escola, namoro, faculdade, noivado, marido, casamento e filhos.

Eu queria, juro que queria, pois seria mais fácil assim.

Mas não me encaixo nos moldes, não sou pré-moldada.

 

Talvez eu seja muito quadrada.

Ou redonda demais para entrar num quadrado.

Será que os outros também enxergam que eu não caibo?

E se tentar espremer, para fazer caber, dói.

Mais fácil me afastar daqueles que me querem ali.

 

Eu queria ser uma esposa perfeita.

Rezo todas as noites para aflorar em mim uma vontadezinha de ser mãe.

Por que não me encaixo?

Por que só não um pouquinho dentro dos padrões?

 

Daí, vem certa “inveja” da vida alheia,

da vida que as redes sociais mostram.

Será que aquela mulher-esposa-mãe perfeita é tão feliz quanto eu,

que luto diariamente pra saber quem eu sou?

Porque, sinceramente, se ela sabe, eu ainda estou me descobrindo.

 

No fundo, acho que a gente já nasce feminista.

Não é sempre que eu admito, mas às vezes eu só queria me encaixar.

Sem brigar, sem lutar, sem levantar a voz.

Mas esse sentimento que grita dentro da gente

é mais forte do que os moldes que tentam nos colocar.

 

Eu já quis muito, muito mesmo, me encaixar.

Tem horas que ainda penso nisso.

Mas quando olho para mim hoje, para onde cheguei,

vejo que não mudaria absolutamente nada do que vivi até aqui.

 

Desculpa, mãe, por não ser a filha comportada – mas acho que fiz você rir um bocado!

Desculpa, marido, por não ser a esposa exemplar – mas estou aqui para corrermos por esse mundão, juntos, de mãos dadas.

E para quem lê este texto, e também não se encaixa, tá tudo bem!

Um dia a gente entende que não nasceu Lego e acha nosso lugar no mundo.

 

Mirella Carvalho tem constantes crises de identidade e acredita que só escrevendo consegue se achar e se descobrir. E, por vezes, se descobre uma pessoa completamente diferente. E tá tudo bem...

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