Quarta-Feira, 12 de Abril de 2017, 15h:23

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Escola Pá

Por: ARIADNE CAMARGO

 

Edson Rodrigues

Taynara_Pouso

 

Todo mundo lembra de alguma coisa da escola. Um amigo, um professor, a tia da cantina, o uniforme horroroso, o livro predileto... As escolas de hoje têm tudo isso também e nossos jovens, no futuro, vão eleger coisas de que gostaram ou detestaram.


Passei pela escola ocupando lugares diferentes. Primeiro o de aluna, aplicada em certa medida, adorava a convivência, vivia intensamente a relação com os amigos, algumas amizades se solidificaram de tal maneira que hoje sentamos juntas para partilhar as angústias e alegrias da maternidade. Também, nos meus tempos de escola, detestava matemática e química orgânica, como muitos dos meus alunos de hoje. Eu tinha que decorar as fórmulas como os meus meninos precisam fazer ainda e me surpreendo quando uma aluna me conta que coloca cartazes coloridos com aqueles conceitos úteis apenas para passar no vestibular, exatamente como eu fazia no meu tempo.

 
Quando ocupei o lugar de professora fiquei encantada, maravilhada e assustada ao mesmo tempo com aquela deliciosa experiência junto a meninos e meninas nas borbulhas da adolescência. Sempre adorei a adolescência, acho uma fase imensamente rica, ao mesmo tempo em que se tem fortes ímpetos de coragem, a insegurança e as descobertas também estão todas ali, no mesmo ser. Me irrito com aqueles pais que diziam "ele SÓ estuda", como se fosse a tarefa mais fácil do mundo ficar o dia todo sentado em uma cadeira desconfortável ouvido um monte de baboseiras.

 

É claro que não são apenas bobagens, há muito do que se aprende na escola que é realmente importante, como entender a história, compreender como as leis da física influenciam no nosso dia-a-dia ou usar a língua com eficiência para qualquer a situação. O problema é que, com o tempo, vi com clareza a perversidade da escola tradicional.

 

Embora muitos de nós, professores, pensemos realmente nos alunos, nas suas particularidades, e nos esforcemos para que eles cresçam enquanto pessoas, a escola faz um trabalho intenso de uniformização, desrespeitando sistematicamente a individualidade e personalidade deles. É sofrido ver que a maioria das instituições se preocupa mais com um número indicando a colocação do aluno no vestibular, sua nota no Enem e quantos de seus "pupilos" passou em alguma faculdade pra Medicina ou Direito sem realmente se importar com a formação deles.

 

Nesse processo, preferem uns enquanto outros são preteridos, estimulam a competitividade e, como uma pá, empurram para as faculdades montanhas de jovens que depois irão compor o mercado de trabalho para alimentar o capitalismo e dar manutenção ao sistema das diferenças. 


O que consola é que ainda resistem profissionais e instituições que já entenderam que o ser humano é complexo e rico, que as habilidades individuais devem ser privilegiadas e que a sociedade tem muito a ganhar com isso. Há ainda esperança porque nas pequenas ações, como trabalho de formiguinha, ensinamos os alunos a pensarem e a existirem e cultivamos neles a segurança necessária para seguirem e promoverem as transformações.

 

Seja numa pequena escola pública do interior onde um diretor ousado estimula a cultura e a consciência ecológica fazendo os meninos colocarem as mãos na terra e dando-lhes câmera nas mãos, seja num pequeno curso de artes cuja professora ajuda os jovens a verem o mundo com olhos curiosos e provocações performáticas, há esperança. Esperança de que eles, com aquele olhar, tenham coragem de descobrir quem realmente são e que venham para o mundo com muito mais humanidade. 

 

Sou Ariadne Camargo, inquieta mulher de 33 anos, observadora das sutilezas da vida, esposa e mãe em constante construção, professora encantada com a agitação adolescente, empenhada em contribuir para o pensar e existir genuíno de jovens com quem tenho e tive o prazer de conviver e com os quais aprendo, aprendo e aprendo!

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1 Comentários

Carla de Jorge - 12/04/2017

Como esquecer cada rico momento se você fez deles mais especiais! Lindo!!!

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