Terça-Feira, 11 de Julho de 2017, 10h:17

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Deixe-me entristecer

Por: ARIADNE CAMARGO

Edson Rodrigues

Taynara_Pouso

 

Vinícius de Moraes escreveu uma música que diz assim: “tristeza não tem fim, felicidade sim”... Vou discordar desse amado poeta por um instante e dizer o contrário. Felicidade não tem fim, tristeza sim. Porque acredito que a perene é a felicidade e que a tristeza é que é efêmera, mas, por favor, deixe-me entristecer.

Deixe-me entristecer ao ler os jornais ou ao andar pelas ruas e me deparar com a crueldade do mundo, com a violência que se multiplica e vira show e ocupação para muitos que assistem, indiferentes, aos episódios de barbárie como se fosse normal (não é, pelo amor de Deus!) Isso me mostra que se pode escolher para onde olhar, coloca luz naqueles que fazem justamente o contrário e levam conforto como podem a outros.

Deixe-me entristecer com a imundice que corrompe a beleza da terra e faz crescer os problemas que enfrentaremos no futuro, com a árvore que é cortada pelo fingido pretexto de melhorar a cidade com a obra inacabada. Assim fortaleço a vontade do contato com a terra, com a mata e com a água que corre e leva a tristeza.

Deixe-me entristecer quando as coisas não saem como planejei, a frustração é um grande exercício de humildade porque nos ensina que não estamos no comando de tudo, principalmente quando o “tudo” envolve outra vida, outro ser com vontade própria, desejos e sonhos que estão muito além daquilo que eu espero.

Deixe-me entristecer quando aquela pessoa que amo me magoa, me fala verdades ou não, me decepciona. A tristeza da decepção é fundamental para aprendermos o perdão e para compreendermos que somos sempre falhos em alguma coisa, assim como o outro é falho. Ele espelha as nossas faltas, porque sem que as vejamos, não poderemos nunca as superar.

Deixe-me entristecer quando o dia chega e a vontade de sair da cama não. Saber que há muitas tarefas pela frente, muito a resolver e decisões a tomar nos angustia e entristece, mas esses minutinhos a mais de tristeza na cama por saber que não dá para ficar inerte muito tempo ajuda a carregar as baterias para ter forças para sair da concha.

Deixe-me entristecer porque a tristeza passa, depressa às vezes, outras não, mas passa e traz de volta o brilho da alegria. A tristeza endireita caminhos tortos, devolve o rio para o curso. Ela lança luz ao que é ruim para que vejamos com mais nitidez o que é bom.

A tristeza é essencial para fazer transbordar o que sobra, o que não cabe mais na existência. Esse sentimento aparece principalmente quando estamos evoluindo porque nos obriga a deixar para trás antigos padrões, força-nos gentilmente a elevar a vibração para sairmos do conforto da não mudança. A tristeza é tão nobre quanto a alegria porque não é possível viver o tempo todo alegre, mas sempre podemos transmutar qualquer coisa em aprendizado. A tristeza e a alegria fazem parte das pessoas de verdade.

Se a tristeza vem, eu a recebo, dou um abraço bem apertado nela, às vezes tão apertado que as lágrimas saem e, depois, deixo-a ir. O sal do choro se dissolve nas águas de Oxum, é acolhido pelo mar Iemanjá e volta em forma de alegria pelos ventos de Iansã. A tristeza passa e dá lugar à felicidade.

Ariadne Camargo é uma mulher que está aprendendo a transmutar em meio à ventania, observando e vivendo cara degrau da evolução nesta existência.

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