Segunda-Feira, 24 de Julho de 2017, 13h:01

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Celebremos o renascer

Por: PETU ALBUQUERQUE

Michely_Figueiredo

 

“Vem caboclinho da mata, há partículas de amor no ar. Vem curumim Inã, há festa para te esperar. Vem na luz”. Embalado ao som dessa canção canalizada pela tia Liana Menezes, Inã veio ao mundo numa sexta-feira, dia de Oxalá, o regente da Umbanda Sagrada. Chegou sereno, rodeado de muito amor, como lhe foi prometido, e levando todos às lágrimas. Inã veio transformar. E começou pela minha transformação. Seu nascimento representou o meu renascimento. Morre a antiga para dar lugar a nova mulher, agora com o atributo de mãe.

Não pense que é simples. Esse renascer exige romper laços com o passado, assumir uma nova roupagem, estar forte o tempo todo, por mais que este seja o momento em que nos tornemos mais frágeis. Tudo é novo. Precisamos reaprender até mesmo a dormir.

O principal marco do renascer foi a dor do parto. Parir é realmente um evento avassalador. Quando acredita-se não ser mais possível lutar, surge uma força imensa do lugar mais profundo do ser. Considero que seja a força da ancestralidade, da mãe terra, das matas, do povo indígena, das negras batalhadoras, que desperta nesse limiar entre a dor e a insanidade.

Palavras não são capazes de descrever este momento. Só quem passou por ele é capaz de entender o que representa. Por mais que a dor seja um fator que ainda afasta as mulheres do parto normal, foi a experiência mais extraordinário que pude vivenciar. E quer saber de uma coisa? Passaria por tudo outra vez.

As marcas que passo a carregar agora me fazem acreditar ainda mais em Deus, na presença divina em mim e nos pequenos milagres que nos cercam no dia a dia, mas que não obstante deixamos de observar.

Também pude sentir de forma mais intensa o amor. O amor daqueles que me rodeiam, que me deram amparo e força no momento do parto, que não pouparam esforços para trazer acalento nos instantes em que a dor era extrema, que zelaram por mim, que apoiaram a minha decisão de parir em casa e que celebraram a chegada do pequenino caboclo flecheiro.

Teria sido o amor potencializado pela ocitocina liberada no trabalho de parto? Não sei dizer. Só sei que sou grata a todos aqueles que estiveram presentes e que sem dúvida, fizeram toda a diferença neste momento tão importante em minha vida.

Inã chegou banhado pelas águas de Oxum, amparado pela força dos Caboclos e pela serenidade e mansidão dos Pretos Velhos. Inã ancorou no plano terreno com a certeza de que o amor pode sim fazer com que nosso mundo se transforme. Já dizia Michel Odent, um dos precursores do parto humanizado, “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”. Mudar a forma de nascer consiste em respeitar o tempo do bebê, as escolhas da mulher, reduzir ao máximo a violência no momento de chegada a este mundo. Por mais que pareça ultrapassado, parir ainda é a melhor forma de trazer uma nova vida ao mundo. Celebremos a retomada dos antigos costumes e também o renascimento e os aprendizados permitidos por ele.

 

Petu Albuquerque é uma mulher balzaquiana, observadora da vida, aspirante à psicoterapeuta reencarnacionista e que tem fé na mudança.

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