Domingo, 13 de Maio de 2012, 08h:00

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Dona Terezinha: uma mãe para as crianças carentes de Várzea Grande

Próximo de uma década, Projeto Vestir de Terezinha Ferrari já doou roupas a centenas de crianças. As peças são todas confeccionadas com retalhos de tecidos.

Por: ALIANA CAMARGO

Num quartinho de casa, a máquina Vigorelli - de 40 anos - ainda faz jus ao Projeto Vestir de dona Terezinha Ferrari. É com essa companheira inseparável que a dona de casa, de 72 anos, costura há quase 10 anos, roupas para crianças carentes de vários bairros de Várzea Grande, cidade vizinha da capital de Mato Grosso.

Mas a Vigorelli, movida a pedal, está perdendo o seu vigor. Há tempos que dona Terezinha se queixa da velhice da companheira e quer como presente do Dia das Mães, comemorado neste domingo (13), outra máquina para continuar costurando voluntariamente e vestindo crianças em que os pais não têm condições de comprar o vestuário. A vontade de comprar uma máquina versátil não se torna possível com o salário mínimo que ganha como aposentada.

Gasta o pouco que tem com aviamentos e diz que precisa de mais retalhos para fazer roupas masculinas. Ela espera que alguma pessoa generosa entenda seu projeto de vida e queira lhe oferecer a tão sonhada máquina.

Mayke Toscano/HiperNotícias

Terezinha Ferrari: "Fico feliz quando posso ajudar crianças que não tem nada"

Apesar da saúde já fragilizada, a vista cansada, dona Terezinha Ferrari ainda persiste em buscar retalhos, muitos descartados de confecções, para fazer as roupinhas para as crianças de várias idades.

Terezinha Ferrari é mãe, mas do único filho diz pouca coisa. Uma mágoa aparece no seu olhar – “não posso falar muito dele, me sinto abandonada e acho que não vale a pena falar sobre isso”, comenta com certa angústia.

Mas logo depois desse momento de incerteza da vida, dona Teresa, como é carinhosamente chamada, começa a falar do marido Emílio Ferrari e como aprendeu com ele a generosidade, que hoje, lhe dá persistência para continuar a costurar para quem precisa. “Ele ajudava as pessoas o ano todo. Era um homem das artes, trabalhava com circo, teatro e cinema, e quando viemos para cá, há 50 anos, fixamos moradia e aprendi a olhar o próximo com muito respeito”.

Da falta que o marido lhe faz e a distância do filho, dona Teresa se preenche através do projeto voluntário. “Eu me sinto bem. Fico feliz quando posso fazer algo e ajudar crianças que não tem nada”.

UM PROJETO DO ACASO

Mayke Toscano/HiperNotícias

Dona Teresa costura roupas para crianças carentes com sobras de confecções

Do Projeto Vestir ela comenta que começou por acaso. “Minha amiga Maria Júlia me deu uns retalhos para eu fazer almofadas, mas olhei os panos muito bonitos e falei – vou levar para Tereza Zuquete para costurar umas roupinhas – e ela conseguiu fazer umas seis mudas de roupas e assim eu dei para três crianças daqui da rua”.

Desse pequeno gesto, um sentimento cresceu e a vontade de costurar mais roupas tomou conta do dia-a-dia de dona Teresa. Mas havia uma barreira: como costurar roupas sem saber o ofício?

“Nunca fui para uma escola de costura, comecei costurando por intuição. No início fui fazendo vestido, que tem uma costura mais reta. As blusinhas e shorts eram mais complicados de fazer, mas fui sendo orientada por quem sabia e fui aprimorando”.

Desde o início do projeto, em que dona Teresa chama de acaso se acumulam sete anos e várias histórias emocionantes. “Um dia cheguei no bairro 7 de maio (em Várzea Grande) e vi um menino de oito anos usando uma calcinha para não ficar nu, isso me causou muita tristeza".

"Mas o que me causou mais espanto mesmo foi chegar em Nossa Senhora do Livramento (cidade distante a 32km da Capital) e quando fomos fazer algumas entregas de roupas encontramos mãe e filha morando em uma palhoça. Dormiam em cima de um saco plástico. Fui saber que a aposentadoria das duas senhoras eram retiradas pelo filho que não compravam nada para elas comerem e usava todo o dinheiro para benefício próprio”, relatou com tristeza.

Dos anos do projeto, dona Teresa já foi para mais de 15 bairros de Várzea Grande e beneficiou centenas de crianças. A primeira remessa realizada em 2005, mais de 60 peças foram distribuídas no Jardim Panorama.

Em janeiro deste ano, o Projeto Vestir confeccionou 93 peças, todas entregues, e outra remessa está sendo finalizada para o mês de junho com mais de 100 roupas.

A esta altura do projeto, as pessoas fazem contato com dona Teresa para receberem as roupas e ela ainda arrecada outras tantas já usadas para distribuir para os adultos também.

“Tenho uma organização agora. Faço o cadastro das mães e quantos filhos elas têm, nisso entrego as fichas, quando vejo que já completou a demanda eu entrego para a associação ou líder do bairro para fazer a entrega”.

Com a experiência da vida ela diz o que espera de uma nova sociedade. “Eu gostaria que as pessoas fossem mais solidárias, deixem de lado a prepotência, o pouco caso dos idosos, dos deficientes, porque a maioria trata mal as pessoas. A geração que está por vir quero que tenha mais respeito pelos outros”, sonha. Dona Teresa para um pouco, pensa, e encerra a entrevista dizendo: “E também quero pedir que filhos e netos não abandonem seus idosos, que eles tenham mais compreensão”.

SERVIÇO

Aos interessados em ajudar o Projeto Vestir, favor entrar em contato com a redação do Hipernotícias.

 

 

 

 

 

 

Credito: Mayke Toscano/HiperNotícias
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5 Comentários

caroline - 08/11/2012

OLA CONHEÇO ELA, E PRA MUITOS QUE NÃO SABEM DONA TEREZA CONHECIDA COMO VO ESTA MUITO DOENTE ENTRE A VIDA E A MORTE, ENTÃO PEÇO ORAÇÕES PARA ELA... OBRIGADA

Adenir Figueiredo - 13/05/2012

Que exemplo para nós !!! Enviei um email para a Mundial Máquinas, cujo proprietário Sr. Samuel, tem condições em ajudá-la doando uma máquina a fim de que ela continue vivenciando a máxima do Evangelho: " ... estive nu e me vestiste..." Parabéns d.teresa!

Joseane Silva - 13/05/2012

adorei a materia, muito interessante, pena que nao foi relatado o endereço ou telefone de Dona Tereza, para que o publico pudesse ajudar.Eu em particular gostaria de ajuda-la.

Paulo Castro - 13/05/2012

Se é a mão que move a manivela, como ela consegue pegar no tecido e costurar? Não seria pedal?

Eloy Santana - 13/05/2012

matéria perfeita.Parabéns a HiperEquipe!

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